"No meio do caos há uma árvore que resiste. Uma imponente figueira-de-bengala no alto da colina do campo 10, encarnando o espírito rohingya: ‘É uma árvore muito importante nas nossas vidas. Esta é a nossa última esperança. Várias vezes já nos salvou a vida. É uma bênção de Deus”.

O momento foi captado nos campos de refugiados de Kutupalong. Bangladesh, na fronteira com o Myanmar e é um dos muitos relatos do livro “Bornfreee – O mundo é uma aventura” de Rui Barbosa Batista que chegou às livrarias este mês de outubro. 

Ao longo de mais de 300 páginas, o jornalista da agência Lusa, blogger - blogue Bornfreee - e líder de viagens deixa-nos entrar na sua bagagem de vida carregada de “mundos”.

Os campos de refugiados do povo rohingya foi apenas uma das 53 aventuras que escolheu partilhar no seu primeiro livro. Narrar tudo seria uma tarefa hercúlea, embora lhe sobeje memória quando se dá ao prazer dessa partilha seja entre amigos, encontros variados sobre viagens ou nos media.

Se o leitor está à espera de um guia de viagens, dos roteiros convencionais e do clássico “onde ficar e o que comer”, desengane-se.

Enquanto não resgatamos a normalidade do nosso quotidiano, este amante dos “destinos B”, como gosta de dizer, desafia-nos a espreitar alguns dos momentos mais marcantes dos locais que percorreu em 113 países, durante 20 anos, de mochila às costas, passaporte no bolso dos calções e uma vontade inesgotável de “aprender” e “entender” .

“Não conheço melhor expressão da liberdade”, diz.

E é para essa liberdade de andar sem medo à procura do desconhecido que saltamos no livro “Bornfreee – O mundo é uma aventura”.

Seja para a realidade crua e cruel dos campos rohingya. Ou para os afetos do povo do Uganda, onde entrelaçou as mãos com a jovem Pheona, a rececionista do hotel onde se alojou com os companheiros de aventura, e com quem percorreu as ruas de Kabale e testemunhou os “sentimentos de comunhão, família e comunidade deste povo.”

“Deambulado pelo modesto povoado, fixamo-nos numa senhora que descasca batatas em frente à sua barraca. Com a ajuda de intérprete de ocasião, marcaremos almoço consigo para o dia seguinte. Quando cumprimos com o prometido e aparecemos mesmo, sem disfarçar o nosso puro entusiasmo, a incrédula esposa ainda tem dificuldade em aceitar que estamos realmente ali. Sente-se honrada. Não estará mais do que nós”, relata.

É em locais singulares como o bairro piscatório  Guet Ndar, no Senegal - foto em baixo -, que os olhos de Rui Barbosa Batista riem mais, mas também se perde sempre nos rostos que se cruzam no seu caminho, como mostram algumas das suas fotografias – 84 das quais publicadas no livro e muitas mais no Intagram e Facebook do autor.

E sai de coração aquecido pela generosidade de gente como a de Jeddah, na Arábia Saudita,  sobretudo de Said.

“O meu amigo Said ficará para sempre mas minhas mais queridas memória de viagem”, escreve.

E o depois, ou antes, o Irão, que carrega ao colo. Onde já esteve duas vezes e promete voltar. “Já falei em três anos, que foi o período que me permiti esperar até reviver o Irão. Curiosamente, não tanto para explorar novos destinos, mas para matar saudades de tudo o que tornou este país o mais especial entre todos no meu coração.”

As emoções não apagam, no entanto, de “Bornfreee – O mundo é uma aventura”, o rigor da história inerente a cada local que o seu narrador de 49 anos "descobriu". Como acontece na descrição das cidades fortificadas de M’Zab, na Argélia, ou de Moynaq, , no Uzbequistão, que descreve como “perto do fim do Mundo”.

De A a U transporta-nos para as paisagens da Patagónia, na Argentina. Faz-nos privar com povos guerreiros na Etiópia. Embala-nos ao som do ritmo da festa dos Muertos no México e permite-nos sentir o toque das crianças na praia de Zanzibar.

Pelo meio, ainda há tempo para nos encontrarmos com o ditador líbio, Muammar Kadhafi. Mas para saber como, terá de ler “Bornfreee – O mundo é uma aventura”, porque no tempo que vivemos precisamos, mais do que nunca, de nos inspirar e sonhar com melhores dias.

E mesmo sem sairmos do sofá, o Mundo pode ser uma aventura!

Alda Martins