Rosa Grilo, a viúva do triatleta Luís Grilo, falou esta terça-feira na primeira sessão do julgamento e manteve a versão de que foi sequestrada por traficantes angolanos que executaram o marido em casa na frente dela. Já durante a tarde, a arguida ilibou o amante, António Joaquim, de qualquer responsabilidade no crime.

Confrontada com a questão da arma e com o que fez à roupa, Rosa Grilo respondeu à juíza que foi a casa de António Joaquim e "tirou a arma e uma caixa de munições" sem que este soubesse de nada. A juiz presidente do coletivo do Tribunal de Loures responsável pelo julgamento confrontou-a por diversas vezes com pormenores sobre esta questão. Perguntou-lhe se sabia disparar ou se era capaz de distinguir uma pistola de um revólver. Rosa Grilo respondeu que não a ambas as questões. 

Essa resposta suscitou dúvidas às três magistradas que compõem o coletivo. Quiseram saber, por exemplo, porque Rosa terá levado aquela e não outra arma de casa de António Joaquim (de acordo com a acusação foram apreendidas várias armas e várias munições em casa do arguido) e como é que sabia que aquela arma estava a funcionar e que as munições eram as adequadas para aquela arma. A arguida afirmou que sabia que o amante tinha outras armas, mas que eram "recordações antigas que não funcionavam".

"Peguei numa caixa e trouxe. Se ele tinha aquelas munições é porque eram para aquela arma", insistiu Rosa Grilo, diante da insistência das magistradas para esclarecer este pormenor. 

Rosa assegura que nem quando devolveu a arma, "na quarta-feira", contou a António Joaquim o que se teria passado em sua casa, "para não o colocar em perigo".

"Armas", a palavra da tarde na sessão de julgamento

Logo no início do inquérito da tarde, a viúva de Luís Grilo referiu que "todos" os angolanos exibiram armas, quando ela lhes abriu a porta e Luís Grilo desceu do quarto. A juiz presidente mostrou-se surpresa que esse pormenor não tenha sido referido durante a manhã e quis esclarecê-lo. 

Rosa Grilo foi questionada sobre o exato momento em que os supostos sequestradores e homicidas de Luís Grilo exibiram as armas e se todos as tinham exibido desde o início. Rosa assegurou que "retiraram as armas das costas", quando a vítima desceu do quarto, depois de ouvir barulho. 

Como, durante a manhã, a viúva tinha mencionado que foi agredida na cabeça "pelo senhor branco", que depois lhe tapou a boca, a juiz insistiu em esclarecer como "todos" poderiam ter empunhado armas, se pelo menos este "teria as mãos ocupadas" a agredir Rosa e a mantê-la em silêncio. 

Quanto aos diamantes, Rosa Grilo diz que o marido revelou aos traficantes que estes estavam na garagem, o mesmo lugar que o próprio tinha escolhido para esconder a arma que Rosa tinha trazido de casa do amante. Enquanto Luís Grilo ficou na cozinha com dois dos agressores, Rosa Grilo foi então à garagem com um "negro, mas clarinho, de olhos verdes, de uns 25 anos" procurar os diamantes. Quando Rosa abriu a caixa e mostrou a arma, o indivíduo ter-lhe-á disferido um soco no estômago e tirou-lhe o objeto. O alegado sequestrador não procurou saber se havia diamantes nas outras caixas existentes na garagem.

Segurança do filho volta a ser questionada 

Já durante a manhã, a juiz presidente do coletivo questionou Rosa se nunca lhe tinha passado pela cabeça evitar que o filho, então com 12 anos, fosse para casa, quando o cenário que descreve estava a acontecer. A criança estava com a tia paterna, na Costa da Caparica. Quando "as coisas se estavam a descontrolar", a sobrinha ligou-lhe a dizer que ia entregar o menino. 

"Não lhe passou pela cabeça dizer à sua sobrinha para não ir entregar o seu filho para não o expor a esse risco que disse estar a acontecer?", perguntou a juiz. 

Rosa foi evasiva, mas acabou por responder que "na altura" não lhe ocorreu. 

Explicou às magistradas que o percurso entre a Costa da Caparica e a casa do casal terá durado "cerca de uma hora" e foi nesse intervalo "que as coisas se descontrolaram e que ele levou os dois tiros".

A descrição levou a juiz a constatar que a criança não se terá deparado com o pai morto por muito pouco.

Rosa diz que "foram os angolanos que a obrigaram a participar o desaparecimento" do marido. Reiterou que foi à GNR pouco depois das 20:00 e que terá regressado a casa cerca da meia-noite. Durante esse período, o filho ficou em casa, "na sala", e um dos alegados sequestradores, "o branco", no escritório. 

A criança não deu pela presença do intruso. Terá dito à mãe que ouviu barulhos, para supôs serem os gatos. 

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O facto de ter deixado a criança em casa, com o suposto assassino do pai, "durante quatro horas", também foi questionado pela juiz. 

Rosa justificou ter seguido à risca as instruções dos sequestradores "por medo" e a juiz insistiu: "Mas não teve medo de deixar o seu filho em casa com um deles durante quatro, repito quatro, horas?".

Já durante a manhã a arguida tinha sido confrontada com questões sobre a segurança do adolescente. À tarde, as magistradas questionaram, por exemplo, se não teve medo de ter uma arma, dentro de uma caixa, na garagem e que pudesse estar acessível ao filho. Rosa assegurou que menino "nunca ia sozinho à garagem". 

A troca de roupa 

Perante o tribunal, Rosa disse ter "trocado de roupa" por esta estar suja de sangue. Uma das juízas adjuntas confrontou-a com declarações prestadas em sede de inquérito, que disse ter apenas limpo o pouco sangue que lhe tinha caído na roupa. 

Rosa disse não se lembrar dessas declarações e reiterou: "Tirei a roupa que arrumei dentro dos sacos, antes do R. chegar".

Quanto à outra roupa que teria na copa, para pôr a lavar e que terá ficado suja de sangue, Rosa diz que, a mando dos angolanos a colocou dentro de sacos e a colocou no lixo. 

A bicicleta e o telemóvel

Rosa assegurou às magistradas que não foi ela que ficou com o telemóvel da vítima, mas sim os alegados homicidas. Terão sido eles a enviar a mensagem de aniversário, em nome de Luís Grilo, ao amigo que fazia anos nessa segunda-feira. 

A arguida admitiu ter deitado a bicicleta fora "debaixo da ponte de Vila Franca", para dar veracidade à história do desaparecimento, que tinha contado à GNR e que entretanto "se tinha espalhado" nos meios de comunicação social e nas redes sociais. 

Admitiu que nem nessa altura pensou em pedir ajuda, mais uma vez porque tinha medo até porque continuava a ser "perseguida" pelos homens que lhe tinham matado o marido. "Uma vez estava com umas pessoas e eles passaram", contou. 

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Por várias vezes, a juiz presidente de exasperou com as respostas ambíguas e até contraditórias de Rosa Grilo. "Não consigo perceber essa forma da senhora falar... 'penso'... 'devem'. (...) A senhora está a dar-me respostas dubitativas!", disse, acrescentando que Rosa lhe respondia com "ar displicente". 

António Joaquim esteve sempre sereno, sem desviar o olhar da bancada das magistradas ou de Rosa Grilo, que depôs, de pé, à sua frente. Nem quando o seu nome foi referido especificamente, mesmo quando Rosa foi questionada sobre as razões pelas quais o amante passou a frequentar a sua casa e até a dormir lá. António não esboçou qualquer esgar de emoção. 

Esta terça-feira, era suposto terem sido interrogados Rosa e António, os dois arguidos. Porém só as juízas do coletivo tiveram oportunidade de questionar Rosa. Nem o procurador do Ministério Público, nem os advogados, nem os jurados a puderam interrogar. A próxima sessão está marcada para terça-feira, dia 17, e vai arrancar com a continuação do interrogatório a Rosa Grilo. Só depois deve ser interrogado António. 

As testemunhas que estavam previstas para esse dia foram desconvocadas.