São as palavras da jornalista da TVI, Marisa Rodrigues, que dão início à história dos dez anos de desaparecimento de Madeleine McCann.

“Alguns jornalistas portugueses e ingleses que aqui estão para fazer estas reportagens em direto para assinalar os dez anos, aqui mesmo, no ponto de partida, onde todo este caso começou e onde se pode dizer que nunca daqui saímos. As respostas continuam aqui no Ocean Club”.

A notícia do desaparecimento de Maddie conta-se, afinal, em poucas palavras: uma menina de três anos estava de férias com os pais, num país estrangeiro, foi deixada à noite sozinha em casa e desapareceu. Nunca mais foi vista.

Dez anos depois de um dos casos mais mediáticos de que há memória, continuamos todos sem saber mais. A pergunta a que a TVI24 tentou responder esta manhã é apenas esta: “Como não temos resposta para o mistério?”

O primeiro caminho, na viagem tortuosa que é o caso Maddie, é quase sempre apontar o dedo à investigação das forças de segurança. Os erros cometidos na primeira abordagem das autoridades terão levado a que muitas perguntas continuassem ainda sem resposta.

“Naquela altura aconteceram uma serie de factores que sempre dificultaram as coisas. (…) Primeiro que interviessem as autoridades ainda demorou bastante tempo, entretanto tinham entrado os amigos, tinham entrado empregados, tinham entrado toda a gente”, explicou António Teixeira, ex-inspetor da Polícia Judiciária nas Manhãs da TVI24, que lembra ainda que no início a primeira hipótese foi de que a criança tivesse saído pelo próprio pé e tido um acidente.

Foi com o passar das horas, depois das primeiras imagens marcantes dos McCann mergulhados em lágrimas a apelarem ao regresso da filha, que as autoridades começaram a colocar todas as outras possibilidades.

“A hipótese de rapto foi lançada por eles [pais]. Nós não temos um historial de raptos aqui, o que é facto é que em Inglaterra acontece esse crime com alguma frequência”, lembra o ex-inspector.

Da tese de acidente e rapto à suspeita de homicídio bastaram semanas de ausência de respostas. Os diretos continuaram à porta do Ocean Club, mas os holofotes viraram-se agora para os pais de Maddie.

Mas dez anos depois também aqui os factos são claros.  

“O que é facto é que depois deste tempo todo não foram encontrados vestígios que sequer nos levassem a pensar o que é que aconteceu, concluir de uma forma segura, sobre o que é que aconteceu”, lembra António Teixeira.

Mas sobre o facto de os menores  terem ficado sozinhos durante a noite mais poderia e deveria ter sido feito. 

“É óbvio que houve aqui uma questão que ficou por trabalhar (…) por que é que em relação aos McCann não houve um procedimento criminal por abandono? E que isso de facto é uma questão que não está respondida e merecia uma resposta. Independentemente daquilo que aconteceu a Madeleine McCann (…) estas crianças e mais oito estavam sozinhas”, lembrou o Advogado Pedro Proença.

O causídico aponta ainda uma outra pergunta solta ao caso Maddie que se prende com o arquivamento “rápido” do inquérito. O processo criminal foi arquivado pouco mais de um ano depois do desaparecimento sem que tivesse existido uma explicação judicial.

O caso acabou por ser reaberto já em outubro de 2013 e continua em investigação. Em Inglaterra, depois de ter sido criada uma vasta equipa, o processo está agora entregue a uma equipa mais pequena e concentrada que, segundo a polícia inglesa, tem ainda pistas "importantes" sobre o desaparecimento da menor. 

O desaparecimento de Maddie originou as mais diferentes polémicas. As forças de segurança, GNR e Polícia Judiciária, assim como a própria Procuradoria-Geral da República foram colocadas em causa. A publicação do livro do primeiro coordenador do processo, Gonçalo Amaral, colocou a nu contradições e suspeitas quer do comportamento dos pais, quer da investigação.

Os erros no desenrolar da investigação parecem ser agora mais fáceis de identificar e António Teixeira não tem dúvidas em considerar um momento como “extremamente importante”. O ex-inspetor considera que o testemunho da amiga do casal, Jane, que alega ter visto um homem com, supostamente, uma criança ao colo na noite do desaparecimento, é uma peça fundamental.

Este facto é extraordinário, precisava de ser aferido. É por isso que quando nós lá fomos numa segunda fase quisemos muito que se fizesse uma reconstituição que esteve quase para acontecer e não aconteceu ainda hoje não sei o porquê, não houve vontade, não percebo, o que é facto é que aquilo é importante. Porque se realmente ela viu alguém comum criança nos braços e podia ser a Maddie é muito importante.”

A verdade sobre o que aconteceu a 3 de maio de 2007 é até hoje uma incógnita. Dez anos depois ficam os ensinamentos sobre o que fazer quando desaparece uma criança, a certeza que 98% dos casos de menores desaparecidos são resolvidos com sucesso e o facto que continuamos todos aqui no mesmo sítio a fazer a mesma pergunta:

Onde está Maddie?