Uma testemunha oculta e com voz dissimulada identificou esta segunda-feira, em audiência de julgamento, vários arguidos da chamada «Máfia do Vale Sousa», garantindo terem sido, entre 2009 e 1010, seguranças em estabelecimentos de diversão noturna.

Por videoconferência, a testemunha, com o nome de código «Joaquim Patanisca», revelou ao tribunal de Penafiel ter visto o arguido Tó Zé, identificado como pertencendo ao grupo dos «peixeiros», a negociar com outro arguido, César, alegado proprietário de um bar no Marco de Canaveses, o recebimento de 100 euros por semana pelo serviço de segurança.

Os 44 arguidos deste processo, entre os quais duas empresas de segurança, estão acusados pelo Ministério Público de 142 crimes, 20 dos quais de associação criminosa.

Segundo a acusação, os elementos da «Máfia do Vale do Sousa» obrigavam os donos de cafés, bares e discotecas de Penafiel, Paços de Ferreira, Lousada e Marco de Canaveses a pagarem avultadas quantias de dinheiro pela segurança dos estabelecimentos.

«Joaquim Patanisca» é uma das três testemunhas arroladas pela acusação, cujos depoimentos, por videoconferência, são ocultados, com dissimulação de imagem e voz.

Esta segunda-feira, a primeira testemunha a depor sob anonimato assumiu sempre estar nervosa e o receio de poder ser identificada. Apesar disso, referiu ter visto várias vezes Tó Zé, conhecido como Toninho Peixeiro, a dar ordens a outros arguidos que faziam segurança noturna em estabelecimentos de Paredes, Paços de Ferreira e Marco de Canaveses.

Ao coletivo de juízes, presidido pela magistrada Luísa Ferreira, a testemunha adiantou que foi agredida uma vez pelo arguido Américo, «com murros, cabeçadas e pontapés». e que outros clientes de bares da região terão também sido espancados pelo mesmo agressor. «Isso só acontecia quando os clientes estavam a armar confusão», contou.

A testemunha revelou que Tó Zé estava quase sempre acompanhado pelo arguido Jacinto, que identificou como «boxista», e pelo réu Paulo Mano. «Andavam sempre os três», afirmou, garantindo tê-los visto centenas de vezes.

Ao longo do depoimento, a magistrada que acompanhava «Joaquim Patanisca» informou várias vezes o tribunal do cansaço e nervosismo da testemunha, que dizia estar receosa de que as informações que estava a dar pudessem levar à sua identificação pelos arguidos. Após cerca de seis horas de audição, o tribunal determinou a suspensão do depoimento, determinando a sua continuação na sexta-feira.

Nessa sessão, deverá também começar a ser ouvida a segunda testemunha que deporá sob anonimato, com o nome de código «Zé dos Anzóis».

Na decisão instrutória que conduziu à realização do julgamento, justificou-se que se mantém o alarme social associado aos factos de que estão acusados os arguidos, alegadamente praticados entre 2008 e 2010.

Além dos crimes de associação criminosa, os arguidos estão acusados de 43 crimes de extorsão, 16 de exercício de segurança privada, 19 de tráfico de armas, 21 de detenção de arma proibida, 16 de ofensa à integridade física, quatro de ameaça, um de furto, um de coação e um de abuso de poder.

O principal visado na acusação é o chamado «grupo dos Peixeiros», de Penafiel, o qual, segundo o Ministério Público, «há já largos anos» se dedicava a «atividades criminosas diversificadas».

O «grupo dos Peixeiros» está igualmente acusado de se dedicar «a serviços de extorsão, na vertente de cobranças difíceis (¿) auferindo assim de outros rendimentos e consolidando a sua senda de atemorização na região do vale do Sousa».

O processo associa também diversos arguidos à venda, compra e intermediação ilegais de armas de fogo e respetivas munições, numa parte da acusação sustentada em escutas telefónicas.
Redação