A Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (ABZHP) advertiu esta segunda-feira para a possibilidade de haver despedimentos no setor, assim que a atividade for retomada, caso o Governo não assuma os salários a 100%.

Concentrados diante da Câmara do Porto em solidariedade com os colegas de Lisboa, que à mesma hora se juntavam em frente à Assembleia da República, pouco mais de uma dezena de empresários portuenses lamentaram também o "silêncio" do Governo para com um "setor sempre disposto a colaborar".

Manuel Carvalho, vice-presidente da ABZHP, em resposta à pergunta da Lusa, admitiu que as dificuldades atuais que dizem estar a viver podem conduzir a cenários de despedimento dos funcionários.

Cada situação é um caso, mas ao não haver turismo, e com as pessoas do centro do Porto expulsas pela especulação imobiliária, verificamos que os restaurantes estão muito vazios e, provavelmente, os bares também não terão clientes para tudo e poderão ter de dispensar alguns funcionários", disse.

Uma semana depois de a associação ter denunciado situações de "batota" de alguns empresários da noite do Porto, nomeadamente "através da alteração do Código de Atividade Económica (CAE)", passando "a designação de bar para café", não cumprindo, também, "as regras de distanciamento social" obrigatórias pelo combate à covid-19, Manuel Carvalho foi mais longe.

Há um aproveitamento de alguns empresários sem escrúpulos. Isso está a acontecer no Porto e em Gaia, mas enquanto no Porto o controlo é feito pelo horário [o encerramento é às 23:00], e vejo alguma fiscalização, em Gaia estão abertos até de madrugada", disse.

Representando "cerca de 200 bares e discotecas", o dirigente admitiu "haver infratores entre os associados", escusando-se, contudo, a contabilizar, por "não querer denunciar ninguém em particular".

E prosseguiu: "fomos os primeiros a fechar e os últimos a abrir. Compreendemos que é difícil legislar para a abertura das discotecas e dos bares com pista de dança, mas temos de ter apoios, pois continuamos, enquanto entidade patronal, a ter de pagar um terço do salário aos nossos colaboradores, sem faturar".

Admitindo "ser cedo demais para abrir os bares", apesar de no Porto "as coisas parecem mais controladas", Manuel Carvalho baseia-se no facto de "em Lisboa os números têm crescido" para reiterar que "abrir pode ser arriscado".

Não defendemos que se deixe de pagar as rendas, mas sim um prolongamento de um ano num contrato de cinco anos para além de uma carência do pagamento no período em que estivermos fechados", frisou o responsável associativo das novas reivindicações das ABZHP que incluem o "pagamento aos funcionários pelo Estado de 100% do salário".

À Lusa, o presidente da associação, António Fonseca, criticou "o silêncio do Governo" desde que a 01 de junho alertou para as "irregularidades".

Tivemos na terça-feira passada uma reunião com a Secretária de Estado do Turismo [Rita Marques] que encaminhou o assunto para o Secretário de Estado do Comércio [João Torres] com a tutela desta área, que marcou uma reunião connosco, mas que queria decorresse com o seu chefe de gabinete, o que recusámos", descreveu António Fonseca, dando conta de "novo pedido de reunião, mas que terá de ser com alguém do Governo".

Manifestação em frente à Assembleia da República

Os empresários da noite lisboeta criticaram esta segunda-feira o silêncio do Governo por falta de resposta aos sucessivos pedidos para a reabertura da atividade, lembrando que também têm família.

O lamento veio dos cerca de 200 responsáveis de bares e de discotecas, maioritariamente dos lisboetas Bairro Alto, Cais do Sodré, Estrela e Campo de Ourique, que protestaram diante da Assembleia da República, em Lisboa, para exigir a reabertura das suas atividades.

Empunhando cartazes em que se podia ler "Fomos os primeiros a fechar, há melhor exemplo?", "Igualdade para todos, a noite também é cultura" ou ainda "Mesmo sem receber o 'lay-off' queremos abrir gostoso", a manifestação que, se tornou em marcha em redor do quarteirão defronte ao parlamento, passou de silenciosa a um conjunto de bater palmas, único momento em que se quebrou o silêncio.

Os manifestantes foram interpelados pela polícia, tendo identificados alguns dos organizadores, sem que, no entanto, houvesse qualquer perturbação do protesto.

O objetivo [da concentração] é termos respostas, estas respostas não chegam. Temos ouvido de todo o lado que o assunto está em cima da mesa, mas está em cima da mesa há muito tempo. O que nós precisamos é de uma resposta. Não podemos continuar a viver assim, a viver do ar. E é assim que estamos a viver há muito tempo”, disse à agência Lusa Andreia Meireles.

Segundo a representante do Grupo de Bares e Comerciantes da Misericórdia, que já vai na segunda iniciativa - a primeira ocorreu a 21 de maio -, há três meses que estão sem trabalho, lembrando a necessidade de uma maior justiça uma vez que muitos dos estabelecimentos encerraram ainda antes de ser decretado o estado de emergência.

Há cerca de três meses que não recebemos rigorosamente nada. Tem sido complicado, mas teria de perguntar a cada um de nós. Mas ao que sei com ajudas de familiares, amigos e acumular dívida. É o que nos está a acontecer, a acumular dívida”, frisou, lamentando o silêncio de todas as entidades oficiais.

Andreia Meireles realçou que já enviou pedidos para muitos organismos e que ninguém os recebeu, mas que ainda se esperou quem alguém tomasse a iniciativa, o que não aconteceu e nem sequer se obteve qualquer resposta.

“[Do Governo] Absolutamente nada. O que sabemos são informações paralelas, de alguém que conhece alguém e que diz que vai haver… E vão-se passando semanas e semanas e a resposta não surge. A perspetiva é zero e o futuro não é nada risonho. Estão aqui centenas de pessoas à beira da falência, empregados que não recebem, pessoas que têm filhos, famílias, contas por pagar”, frisou.

Questionada pela Lusa sobre qual o passo seguinte, Andreia Meireles disse considerar essa uma “boa pergunta”, uma vez que os mais de 500 empresários da noite na freguesia da Misericórdia estão a sentir-se desmotivados e sem saber o que fazer no dia seguinte., sobretudo «nos pequenos negócios “os mais afetados”.

Vamos continuar [a enviar cartas, ‘e-mails’ e comunicados], embora o que sentimos é que isto está a ser uma luta inglória, não há sequer uma resposta, nem um não, do outro lado. É a completa ausência de resposta. Não podemos continuar a viver assim. Vamos fazer a nossa parte, só queríamos que nos dessem resposta”, lamentou.

“Discriminação” é a palavra utilizada por Fernando Santos, ator e diretor artístico do bar Finalmente, com 44 anos de existência, pois não entende por que razão o Governo está calado.

Estou aqui a tentar perceber o porquê da discriminação deste meio noturno, destas salas de espetáculo que têm servido Lisboa, Portugal, os portugueses, os estrangeiros e o turismo. Porque não há uma previsão para nós. Há para os ginásios, há para uma série de outros setores e o dos bares e discotecas da noite não há uma previsão. Precisamos de trabalhar, todos precisam de trabalhar”, salientou.

Sem trabalhar desde meados de março, Fernando Santos apelou ao executivo de António Costa para que “perceba” que “há muita gente da noite” que precisa de regressar ao trabalho.

É discriminatório. O silêncio é discriminatório. É preciso perceber que há bairros que estavam cheios de vida noturna. Temos de nos tornar visíveis, para que o governo perceba que há muita gente da noite que precisa de apoio, de um consenso. É preciso uma solução, um apoio, de algo que nos possa dar uma perspetiva. É impossível continuarmos assim sem pelo menos termos uma ideia do que pode acontecer”, concluiu.

/ AG