Cerca de 30 pessoas realizaram esta quarta-feira uma vigília no Porto contra a “política de morte” de Jair Bolsonaro na gestão da covid-19, acusando o Presidente do Brasil de inabilidade para lidar com a pandemia.

Aproveitando as tréguas da chuva que caiu durante toda a tarde no Porto, membros do grupo “Solidariedade Brasileira” juntaram-se na Avenida dos Aliados, com velas, uma faixa e muita vontade de mostrar a sua indignação no dia em que do outro lado do Atlântico de comemora o feriado “Tiradentes”.

Priscila Batista, brasileira nascida na Alemanha e há seis anos em Portugal, explicou à Lusa que a vigília é pelas “vítimas do desgoverno do [Jair] Bolsonaro”, contra a “política de morte” do presidente do Brasil, que “causou, pelo menos 370 mil mortes no país” e contra a “inabilidade para lidar com a pandemia”.

“Somos brasileiros e portugueses juntos no grito ‘Fora Bolsonaro genocida’”, acrescentou, aludindo à frase que a letras gordas dominava, também, uma faixa colocada no chão molhado da avenida na Baixa portuense.

A vigília, apesar de simples e feita com as pessoas de máscara e guardando distanciamento social, nem por isso deixou de ter imaginação, com o megafone a ser utilizado também para reproduzir o som de Bolsonaro a minimizar os efeitos da covid-19 com as palavras “gripezinha” e “mimimi”.

“Banalizaram o facto da pandemia existir e por isso estamos preocupados. É que além do Governo dizer que é uma gripezinha, as pessoas acreditaram e muitas vezes não usam máscara e agem como se nada estivesse acontecendo”, lamentou Priscila, para quem “são muitos absurdos juntos” a competir para que o Brasil não consiga “a quantidade de vacinas necessária”.

“Acordar e adormecer com o Governo Bolsonaro genocida no poder tira-nos a paz em qualquer lugar do mundo”, disse.

Camila Florêncio, natural de Minas Gerais e a estudar em Portugal desde 2017, manteve o tom crítico, considerando que Bolsonaro “minimizou desde o início a questão da pandemia, a potência do vírus”.

“Devido a isso não houve apoio para as pessoas que tiveram de ser hospitalizadas. Muitos deles morreram porque faltou o oxigénio nos hospitais”, recordou.

Enfatizando o facto de o Brasil ser “uma referência para as farmacêuticas que queriam desenvolver as vacinas”, lamentou que não tenha havido “interesse do Governo em captar essa oportunidade”, facto que torna “o país hoje um exemplo negativo”.

“Percebemos hoje que há pessoas no Brasil que se arrependeram de há um ano terem alinhado com a posição do Bolsonaro, mas o movimento negacionista continua a ser muito forte”, afirmou Camila, de uma sociedade que continua polarizada a um ano das próximas eleições presidenciais.

Natural de Porto Alegre e há dois anos em Portugal, Guilherme Fortelli acrescentou à “figura incapaz” do Presidente do Brasil, o “projeto de poder que ele representa, com os militares e empresariado, que têm interesses coniventes à forma como a pandemia se está a desenvolver no Brasil”.

“Ele sempre disse que a morte era aceitável, que era um agente da morte, que ele sabia era matar, logo ele não tem a preocupação com a vida das pessoas”, acusou.

Questionado pela Lusa sobre se o número de mortes contabilizadas com covid-19 vai pesar na hora da eleição presidencial em 2022, Fortelli respondeu “ser difícil de prever”, mas admitindo logo depois que “o Governo está a desgastar-se muito por força da condução da pandemia”.

“Infelizmente ainda há gente que se mantém próxima dele, uma junção de desinformação e de ‘fake news’ muito intensa, que leva a uma falta de consciência política”, descreveu Guilherme Fortelli antes de se juntar ao grupo que, de vela na mão e punho erguido, gritou a frase que os reunira aproveitando a trégua da chuva: “Fora Bolsonaro genocida”.

O Brasil chegou na terça-feira aos 14 milhões de casos (14.043.076) de covid-19 e 378.003 mortos, após ter somado 69.381 novas infeções e 3.321 óbitos nas últimas 24 horas, informou o Governo Federal.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.046.134 mortos no mundo, resultantes de mais de 142,8 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

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