O protesto convocado pelos sindicatos da PSP e GNR estava marcado para as 13:00, mas passavam poucos minutos do meio-dia quando o agente Brigas chegou à praça do Marquês de Pombal, em Lisboa. António Brigas é agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) há mais de 20 anos e quis estar na linha da frente da manifestação, frisando que protesta sozinho, sem ligações a partidos ou sindicatos. 

Ordenados justos, reformas já" lia-se no cartaz que fez questão de levar, bem como a bandeira nacional. Aos 56 anos, continua a fazer noites no Departamento de Comunicações da Direção Nacional da PSP, por isso manifesta-se pelo direito à pré-reforma, dizendo que a aposentação não deve implicar cortres salariais. 

  

Também sozinho,o agente Macário juntou-se ao protesto. Aos 63 anos, já está reformado, mas vem em solidariedade com os camaradas no ativo. Ao pescoço, traz o cachecol do Corpo de Intervenção, e fala com o peso de 25 anos de carreira nas forças policiais. 

Não são só os camaradas que estão no ativo que são prejudicados. Uma grande parte dos aposentados de 2014 e 2015 estão a ser prejudicados pela Caixa Geral de Aposentações", afirma.

À medida que se aproximava a hora marcada para o protesto, homens e mulheres, mais novos ou mais velhos - e até um cão polícia - começaram a engrossar a multidão no Marquês de Pombal. Do norte e do sul do país chegaram autocarros cheios de agentes e os cartazes na rua multiplicaram-se. Na maioria deles apelava-se ao respeito e valorização pela profissão das forças de segurança, "uma das mais importantes da sociedade e uma das mais marginalizadas", lê-se num panfleto que é entregue aos jornalistas. 

Às 14:00, a frente de protesto está alinhada. Entre os agentes das primeiras filas está o pontual António Brigas, como não podia deixar de ser. Entre aplausos e apitos, começa a marcha que há-de terminar em frente à Assembleia da República.

Mas, na rua, o Movimento Zero toma conta do protesto. Sem dirigentes, sem cara, mas com voz. "Eles falam como nós", diz um dos agentes, que prefere não se identificar com medo de represálias. Muitos dos manifestantes unem o polegar ao indicador, formam um zero e levantam os outros três dedos da mão, um gesto associado à extrema-direita. Questionados, dizem apenas que se trata de evocar o Movimento Zero, desvalorizando conotações políticas. 

A manifestação segue pela Baixa de Lisboa, ao som de cânticos de tolerância zero, o lema do protesto. Há quem venha à janela dos prédios aplaudir. Na rua Braancamp, junto ao Largo do Rato, um grupo de idosos do lar Casa das Hortênsias levou as cadeiras e sentou-se segurando cartazes de ânimo aos agentes, agradecendo porque se sentem apoiados pela polícia de proximidade do Rato. O cortejo ali se detinha, vezes e vezes sem conta, com PSP e GNR a dizerem obrigado pela homenagem ao senhor Manuel, à dona Estela ou à dona Conceição: alguns agentes tiravam fotografias, outros deram beijinhos e abraços, houve mesmo quem se emocionasse e não escondesse as lágrimas nos olhos. 

 

A polícia de proximidade do Rato dá-nos muito apoio, visitam-nos, sempre que são precisos estão lá e temos que os apoiar em tudo", vai dizendo a diretora do lar. 

Em São Bento, o corpo de Intervenção da PSP posicionou-se nas escadarias da Assembleia da República aguardando a chegada dos manifestantes, que ficaram do outro lado do gradeamento. O dispositivo policial era impressionante. "Juntem-se a nós", gritavam os manifestantes aos polícias de serviço, cantavam o agente Macário e o agente Brigas, juntos no protesto. 

Num dos momentos mais marcantes da tarde, os polícias e militares em protesto voltaram as costas ao parlamento e cantaram o hino nacional, tornando evidente o descontentamento para com a tutela. Seguiu-se um minuto de silêncio em memória do colega da GNR morto num atropelamento no passado fim de semana

André Ventura, o único deputado do Chega, foi recebido com aplausos e chegou mesmo a discursar para os agentes, garantindo-lhes que vai continuar a lutar pelos direitos das forças de segurança. O presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR) considerou o momento um "aproveitamento político" do deputado, que usou o palco e um megafone da organização para falar sobretudo aos que ali estavam com as t-shirts do Movimento Zero, que o próprio Ventura usou. 

O protesto, considerado de alto risco, foi sempre pacífico e terminou pouco depois das 18:00. Os sindicatos estimam que se juntaram ao cortejo cerca de 13 mil pessoas. A maioria dos manifestantes desmobilizou ao final da tarde, ainda que o Movimento Zero tivesse ainda organizado uma vigília no Terreiro do Paço. Porém, pelas 21:00, já só restavam as velas que foram colocadas no pavimento da Praça do Comércio. 

Da manifestação, fica uma promessa: se o Governo não atender às reivindicações da PSP e GNR, que pedem melhores condições de trabalho, haverá novo protesto, já agendado para dia 21 de janeiro.