Centenas de pessoas protestaram esta quarta-feira contra o governo de Nicolás Maduro, em Portugal. Houve protestos no Funchal, em Lisboa e no Porto.

Na Madeira, os manifestantes, na maioria emigrantes e ex-emigrantes na Venezuela, concentraram-se no Largo do Município, no centro no Funchal.

Nicolas Maduro foi eleito Presidente de forma ilegal e a partir daí bem sabemos o que tem acontecido na Venezuela, a crise, o sistema caótico em que vivem as pessoas, a falta de medicamentos", disse à agência Lusa Lídia Albornoz, membro do grupo responsável pela organização do protesto.

O Largo do Município encontrou-se repleto, com bandeiras da Venezuela esvoaçando entre os manifestantes e palavras de ordem contra o governo de Maduro, país onde reside uma das maiores comunidades madeirenses.

Queremos mostrar ao mundo o que está a acontecer na Venezuela, também a partir deste ponto pequenino que é a ilha da Madeira", afirmou Lídia Albornoz, ex-emigrante de 50 anos, que regressou à região há duas décadas.

A crise económica e social no país motivou já o regresso à região autónoma de mais de 6.000 emigrantes madeirenses desde 2016 e as previsões apontam para que o número continue a aumentar.

Desafiamos todos os venezuelanos espalhados pelo mundo, sobretudo na Europa, a organizarem sempre manifestações, para colocar a situação nas bocas do mundo", disse Lídia Albornoz, vincando que "tem de ser assim, não podemos deixar tudo como está, porque o povo venezuelano vai continuar a sofrer".

A manifestação do Funchal presta também apoio ao presidente da Assembleia Nacional e opositor do governo, Juan Guaidó.

Juan Guaidó é um jovem e as pessoas estão a ver nele o futuro Presidente da Venezuela. Ele é o único que pode convocar eleições livres", afirmou Lídia Albornoz.

O protesto assinala também o golpe de Estado de 23 de janeiro de 1958, que pôs fim a ditadura do general Marcos Perez Jiménez e marcou o início do processo democrático na Venezuela.

Centenas de pessoas concentram-se no Porto para pedir liberdade para o país

Cerca de duas centenas de pessoas, maioritariamente estudantes, concentraram-se na praça da Liberdade, no Porto, para pedir ao Governo português que tome uma posição em relação à situação que se está a viver na Venezuela.

Quando o medo morre, nasce a liberdade. Fim ao regime de Maduro" é a frase que se lê na faixa colocada diante da estátua de D. Pedro IV. Ao lado bandeiras da Venezuela e nas estradas à volta da praça que "fecha" a Avenida dos Alados, no 'coração' do Porto, carros a buzinam e gente bate palmas.

Em declarações à agência Lusa, José Alves, aluno do curso de Línguas Aplicadas na Universidade do Porto (UP), explicou que o movimento que deu origem a esta concentração começou nas redes sociais e partiu de estudantes luso-venuzuelanos que "anseiam por liberdade para a Venezuela e querem ver o Governo português a marcar posição".

É uma exigência nossa. Portugal não pode ter uma posição neutra nesta matéria, tem de ser firme e não pode reconhecer a ditadura de Nicolás Maduro. Estamos aqui para exigir isso e para mostrar solidariedade com o Presidente interino da Venezuela", disse José Alves.

O estudante de 22 anos refere-se a Juan Guaidó, de 35 anos, que hoje se autoproclamou Presidente em exercício da Venezuela, assumiu a liderança do parlamento, o último órgão oficial sob controlo da oposição, emergiu como principal rosto do movimento que procura derrubar Maduro do poder.

Ao lado Susana Correia, estudante de Relações Internacionais na UP, segura numa bandeira da Venezuela e um cravo vermelho.

Esta é a melhor forma de explicar ao povo português o que sentimos e o que queremos para o nosso país. É mostrando o símbolo da vossa revolução. Foi com cravos que acabou a ditadura em Portugal e é em Portugal que estamos, é a Portugal que podemos recorrer para pedir ajuda", disse a venezuelana, neta de avós madeirenses, que mora no Porto há três anos.

 

Quem somos? Venezuela. O que queremos? Liberdade!" é o grito mais ouvido. De mão em mão foi passa um bloco com uma tabela onde é pedido que todos coloquem os seus contactos. O objetivo é conseguir organizar um grupo para pedis uma reunião "urgente" ao primeiro-ministro português, António Costa.

Fátima Abreu Gomes também é aluna da UP, universidade onde os pais escolheram que estudasse porque, contou, "não confiam no futuro da Venezuela".

As condições estão a piorar todos os dias lá. A minha família sofre ameaças de sequestro. Às vezes ficamos três meses sem aulas e os melhores professores fogem, só ficam os piores. Falta comida, faltam bens essenciais, falta liberdade, falta tudo", disse a estudante de Línguas Aplicadas.

 

Concentração junta dezenas em Lisboa

Também em Lisboa, dezenas de venezuelanos e portugueses que viveram no país juntaram-se hoje no Terreiro do Paço, em Lisboa, para celebrar o facto de Juan Guaidó se ter autoproclamado Presidente interino da Venezuela, exigindo mudanças no país.

“Pertencia a um partido político na Venezuela e achei melhor procurar um futuro fora do país, para não ser preso e estou há três anos em Portugal. Tenho lá a minha família toda e amigos e é uma vida muito dura”, disse Alex, de 22 anos, em declarações à televisão SIC.

O jovem referiu que não tinha palavras para descrever os seus sentimentos, considerando que agora será o “início de um processo árduo para uma mudança e para que a Venezuela seja livre”.

As dezenas de pessoas presentes na iniciativa, marcada nas redes sociais, cantaram o hino da Venezuela e pediram o fim de Nicolas Maduro no poder, mostrando bandeiras e mensagens a pedirem mudanças no país.

“Vim para Portugal de férias, a caminho de Espanha, mas fui bem acolhido e fiquei por aqui. Sai da Venezuela porque a situação política e social no país é horrível e tenho esperança que agora mude”, defendeu Manuel, que está em Portugal há três anos.

Juan Guaidó autoproclamou-se hoje Presidente interino da Venezuela, perante milhares de pessoas concentradas em Caracas.

"Levantemos a mão: Hoje, 23 de janeiro, na minha condição de presidente da Assembleia Nacional e perante Deus todo-poderoso e a Constituição, juro assumir as competências do executivo nacional, como Presidente Encarregado da Venezuela, para conseguir o fim da usurpação [da Presidência da República], um Governo de transição e eleições livres", declarou.

Para Juan Guaidó, "não se trata de fazer nada paralelo", já que tem “o apoio da gente nas ruas".

O engenheiro mecânico de 35 anos tornou-se rapidamente o rosto da oposição venezuelana ao assumir, a 03 de janeiro, a presidência da Assembleia Nacional, única instituição à margem do regime vigente no país.

Nicolás Maduro iniciou a 10 de janeiro o seu segundo mandato de seis anos como Presidente da Venezuela, após uma vitória eleitoral cuja legitimidade não foi reconhecida nem pela oposição, nem pela comunidade internacional.

A 15 de janeiro, numa coluna de opinião publicada no diário norte-americano The Washington Post, Juan Guaidó invocou artigos da Constituição que instam os venezuelanos a rejeitar os regimes que não respeitem os valores democráticos, declarando-se “em condições e disposto a ocupar as funções de Presidente interino com o objetivo de organizar eleições livres e justas”.

Os Estados Unidos, o Canadá, a Organização dos Estados Americanos (OEA), o Brasil, a Colômbia, o Peru, o Paraguai, o Equador, o Chile e a Costa Rica também já reconheceram Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela.

Até agora, apenas México e Bolívia anunciaram que se mantêm ao lado de Nicolás Maduro.

A Venezuela enfrenta uma grave crise política e económica que levou 2,3 milhões de pessoas a fugir do país desde 2015, segundo dados da ONU.

Esta crise num país outrora rico, graças às suas reservas de petróleo, está a provocar carências alimentares e de medicamentos.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação deverá atingir 10.000.000% em 2019.