O Governo decidiu cumprir escrupulosamente o plano que tinha traçado para o desconfinamento. Questionado sobre se a tomada de posição obrigará o executivo a recuar no futuro, o matemático Carlos Antunes afirmou que essa é uma possibilidade, uma vez que a abertura do país vai refletir-se num aumento do índice de transmissibilidade.

Esperemos que não. O que é que nos leva a pensar que pode haver um recuar? O aumentar da incidência é fruto do número de contactos diários que cada pessoa tem. Ao aumentarmos a mobilidade, o número de pessoas com que nos cruzamos diariamente passa a ser maior”, explicou.

O especialista reforçou, no entanto, que existem outros fatores que podem “ser compensados” para equilibrar este aumento, como é o caso da testagem em massa. Carlos Antunes recorda que existe um aumento significativo do uso dos testes rápidos PCR e que tal poderá contribuir para a deteção precoce, isolando os infetados o mais rapidamente possível.

É importante que o período em que estejam infecciosos seja inferior”, sublinhou.

Outro dos fatores destacados foi a utilização da máscara e de distanciamento social. Sempre que nós utilizamos máscaras, mesmo que entremos em contato com alguém que esteja infetado, a probabilidade de contágio “reduz-se”.

O matemático explicou ainda que a análise da situação epidemiológica com base no número de casos por 100 mil habitantes é “incompleta”, uma vez que não mostra a taxa de transmissibilidade e a velocidade com que o vírus se propaga nos concelhos, sublinhando ainda que existem concelhos, como é o caso de Beja, que dentro de dias já não estarão no grupo de concelhos com mais de 120 casos por 100 mil habitantes.

Não temos a imagem correta da evolução pandémica de cada concelho", frisou.

Sobre o impacto da reabertura das escolas mesmo nos concelhos onde as medidas de desconfinamento deram um passo atrás, o matemático considera que os alunos deveriam ser testados antes de regressarem às aulas presenciais.

Carlos Antunes apontou ainda aquilo que acredita ser uma “incoerência” presente em certas medidas ao destacar que o Governo não permite a abertura do interior de restaurantes com mesas para quatro pessoas, mas permite a abertura de escolas para mais de dois mil alunos.

É incoerente, porque vai aumentar o número de pessoas que circula. (…) em termos práticos, do ponto de vista epidemiológico, vai colocar em contacto muito mais gente e, por isso, potencia a possibilidade de contágios”, referiu.

Do ponto de vista epidemiológico, admite que o “mais prudente” seria o adiamento da reabertura por uma semana, uma vez que os casos continuam a aumentar. No entanto, refere que tal decisão teria riscos “do ponto de vista social e económico”.

Manuel Carmo Gomes também participou, esta sexta-feira, no Hoje É Notícia, onde confessou acreditar que a probabilidade de ter de voltar atrás nas medidas “seja elevada”. O epidemiologista diz-se ainda “preocupado” com a subida continua do R(t) desde fevereiro e com a incidência que está a “apresentar tendência de subir” desde o final de março.

Nós não podemos comparar a incidência atual com um valor qualquer escolhido em março para dar ideia de que ela agora está baixa, porque a tendência é para subir”, destacou.

O professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa alertou ainda para a proliferação da nova variante “que é 50% mais transmissível” e já domina o panorama dos novos casos em Portugal. Outros dos alertas do especialista focou-se na vacinação no grupo de pessoas com idades abaixo dos 65, “o motor de propagação da doença”, que ainda é muito baixa.

Ainda desconhecemos o impacto do segundo passo da reabertura, a 9 de abril”, lembrou.

Sobre a possibilidade da chegada de uma quarta vaga do vírus que coloque em causa a reabertura dos negócios no verão, Manuel Carmo Gomes diz acreditar que essa nova vaga não se traduziria no aumento das hospitalizações verificadas noutras alturas, mas, a vir, “não será bom para ninguém”.

A classificação do país nos rankings de controlo da pandemia é importante para a economia de Portugal. Nós estamos a aproximarmo-nos de uma altura em que as pessoas vão fazer as suas reservas de hotéis e viagens", lembrou.