Um homem de 45 anos, da Lousã, começa a ser julgado na quarta-feira, no Tribunal de Coimbra, por tentativa de homicídio dos seus dois filhos, menores, em 2017, poucas semanas depois de ficar desempregado.

De acordo com o Ministério Público, o homem, divorciado, tinha a seu cargo um menino e uma menina, de 11 e 13 anos, respetivamente, e elaborou um plano para pôr termo à sua vida e dos seus filhos, que terá tentado concretizar em 13 de junho de 2017.

Depois de ter ingerido várias bebidas alcoólicas nesse dia, pelas 21:00, o arguido terá colocado os filhos no banco traseiro do seu carro e conduziu até um posto de abastecimento onde depositou cerca de 1,5 litros de gasolina num jerricã.

De seguida, dirigiu-se "a grande velocidade" em direção ao Castelo da Senhora da Piedade, na Lousã, depois de ter parado num café, onde consumiu mais bebidas alcoólicas.

Nesse local, abriu a bagageira, retirou o jerricã e terá derramado gasolina no carro, ateando o fogo ao veículo com os filhos ainda no interior, refere a acusação, alegando que o arguido permaneceu no exterior da viatura, a observar as chamas a consumirem o carro.

Ao ver as chamas, a filha mais velha do arguido terá aberto a porta traseira do lado direito, saiu e dirigiu-se imediatamente à outra porta, do lado onde se encontrava o irmão, que tinha o trinco de segurança para crianças ativo, tendo-o retirado da viatura.

As duas crianças, que não sofreram qualquer lesão, afastaram-se do carro, sendo que duas testemunhas, avistando as chamas, terão dado o alerta às autoridades.

O veículo acabou por ser totalmente destruído pelo fogo e foi determinada uma taxa de álcool no sangue de 2,35 g/L, conta o Ministério Público.

Aquando da chegada da GNR ao local, o indivíduo confessou aos militares que era sua intenção acabar com a sua vida e dos seus filhos, tendo apresentado sintomas depressivos e ansiosos após ter sido levado para o hospital.

O Ministério Público acusa o pai de dois crimes de homicídio qualificado na forma tentada, pedido ainda como pena acessória a declaração de indignidade sucessória do arguido em relação aos filhos.

Segundo informações do processo que a agência Lusa consultou, o arguido tinha visto os filhos serem-lhe retirados em 2008.

Após esse episódio, divorciou-se da mulher - que emigrou para França - e lutou para recuperar a guarda dos filhos, o mais novo com limitações físicas e cognitivas, que lhe foram entregues em 2010.

Segundo contou à PJ, a vida da família era tranquila, apesar de nunca fácil financeiramente, sendo que depois de ter terminado o Programa Ocupacional de Emprego (POC) na Câmara de Lousã, terá passado a estar bastante desanimado e deprimido, nomeadamente com medo que os filhos pudessem voltar a ser retirados.

Após esse momento é que terá começado a delinear o plano.

No relatório da PJ, o arguido refere que, assim que ateou o fogo ao carro, se arrependeu, tendo retirado o filho mais novo do interior e que a sua filha saiu pelo próprio pé.

Já a filha mais velha, também ouvida pela PJ, contraria esta versão dos factos, referindo que foi ela que retirou o irmão do carro.

Durante essa noite, a criança recorda que o pai, assim que tinha chegado a casa, "já batia contra as paredes", devido ao álcool, e que perguntou ao filho mais novo se morria com ele.

Com o passar do tempo, a filha ficou mais assustada, apercebendo-se que a ideia seria morrerem os três, depois de ter visto o pai a ligar a várias pessoas, como se estivesse a despedir-se delas.

Na conversa tida com a PJ, a filha refere ainda que o arguido "sempre foi um bom pai, amigo e responsável".

O julgamento decorre na quarta-feira, a partir das 09:30.