O canil ilegal que acolhe 140 animais em Canedo, em Santa Maria da Feira, continua a funcionar sem condições e, segundo revelou esta quinta-feira  fonte dos bombeiros, os donos do espaço têm recusado água para esses cães e gatos.

Em causa está um abrigo improvisado para animais errantes instalado nessa freguesia do distrito de Aveiro e gerido por um casal luso-holandês ligado à organização DZG, cuja fundadora Berta Brazão reconhece que "o canil é ilegal, mas a associação não" e contrapõe: "Nós só não aceitamos água quando temos os tanques cheios e não há onde a meter".

Em julho a GNR já confirmara que o canil da DZG era objeto de um processo-crime por maus-tratos a animais e, em documento a que a Lusa teve agora acesso, lê-se que o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) dessa força policial remeteu o caso para o Tribunal Judicial da Comarca de Santa Maria da Feira, que decidirá o que fazer com as instalações e com os animais aí acomodados.

Moradores da zona afirmaram, entretanto, que o referido canil nem sempre tem água suficiente para acudir às necessidades dos seus 140 animais e, contactado pela Lusa, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Lourosa confirma: "Houve pessoas externas ao canil que nos pediram para lá irmos levar água e ainda o fizemos algumas vezes, mas depois os donos do espaço não nos autorizaram a entrar lá mais".

O comandante José Carlos Pinto explica: "Já lá chegámos a deixar uns 1.500 litros de água, porque o local não tem poço e é preciso abastecer os tanques, mas, da última vez que lá tentámos ir, telefonámos antes a combinar tudo para alguém nos abrir a porta e a senhora que gere aquilo disse que não queria lá ninguém".

O líder operacional dos bombeiros de Lourosa admite que o espaço "não tem condições nenhumas para acolher aqueles animais" e admite até algum incómodo na realização dos referidos abastecimentos de água, uma vez que a corporação "acaba por prestar esse serviço a uma estrutura que está ilegal".

José Carlos Pinto reconhece, ainda assim, que "o bem-estar dos animais tem sido a prioridade" da corporação e, nessa perspetiva, lamenta a demora numa solução institucional que agrade a todas as partes envolvidas.

Berta Brazão, por sua vez, recorda que "também já aconteceu pedir-se água aos bombeiros e eles não a levarem ao canil, porque era época de incêndios e diziam ter que a reservar para outras coisas". A fundadora da DZG diz compreender esse argumento, mas alega que os bombeiros "estão a ceder às pressões por parte de quem critica a associação", o que vem prejudicando a recolha de fundos e géneros alimentícios para sobrevivência dos animais recolhidos no canil.

Claro que não temos as melhores condições, mas, na conjuntura atual, com a lei como está, ninguém consegue fazer melhor - nem nós, nem as câmaras, nem as outras associações de animais. Ou os recolhemos assim como estão ou ele ficam abandonados na rua para serem envenenados, estraçalhados e atropelados", diz a gestora do canil.

O vereador da Proteção Civil, Ambiente, Espaços Verdes, Saúde e Ação Social na Câmara da Feira, Vítor Marques, declara que "a situação não é fácil de resolver" e atribui essa dificuldade à "lei precipitada e inadequada" que desde setembro de 2018 proíbe a occisão de animais e vem levando à sobrelotação dos canis públicos e das estruturas de acolhimento existentes noutras associações de apoio.

Um dia destes o tribunal vai tomar uma decisão, impor que se feche o canil e que se tirem de lá os animais, e o problema vai continuar, porque não vamos ter onde os pôr. O canil intermunicipal está lotado, a associação ANIFEIRA também está a rebentar pelas costuras e isto é tudo culpa do Governo, que avançou com uma lei inadequada sem primeiro apostar na esterilização dos animais errantes", defende o autarca.

Vítor Marques revela, no entanto, estar a diligenciar no sentido de criar na Feira "um parque de matilhas" como os dos municípios de Matosinhos e Sintra, no que o objetivo é viabilizar o acolhimento de cães e gatos errantes "numa zona vedada onde eles possam ficar" até serem adotados.

"É que não há outra solução: isto vai passar por desenvolver uma campanha mais agressiva de adoção porque, como a lei está, o problema só se resolve distribuindo estes animais por mais famílias da comunidade", garante o vereador.