«Significa que critérios como a segurança ou a eficácia do produto deixaram de ser essenciais para a aquisição destes produtos pelos hospitais», disse Miguel Crato, preocupado com a situação.


«Será que os produtos que vão ser comprados para fazermos o nosso tratamento e que são essenciais para a nossa qualidade de vida e, em última análise, para a nossa vida, devem ter o preço como único critério de escolha? Claramente que não», disse.


«O Conselho Europeu fez sair em 2013 sete recomendações para o tratamento da hemofilia e uma delas é que o preço não seja o critério único de adjudicação», adiantou.


«Já aconteceu em Portugal e está na iminência de voltar a acontecer. Os médicos sentem-se impotentes porque têm uma relação laboral com a administração do hospital e porque são pressionados para o fator preço ser o único que interessa, para considerar os medicamentos todos iguais, quando não são».


«O critério preço permite dizer o que é melhor para o erário público, mas nunca o que é melhor para o doente e para a sua qualidade de vida. É um princípio basilar que está a ser afastado».


«Não podemos dizer que os produtos não têm eficácia ou qualidade», disse, explicando: «Uma das complicações mais normais na hemofilia é o aparecimento de inibidores (…). A troca constante de produtos aumenta e potencia o aparecimento de inibidores».






«Não é que os produtos para a hemofilia em Portugal não sejam seguros. À luz dos conhecimentos atuais científicos, têm métodos de inativação viral, e alguns de validação de priões, que são seguros. E os vírus que podem surgir no futuro?», questionou Miguel Crato, lembrando que «quando o VIH apareceu também não era conhecido».

«Interessa-nos o futuro e no futuro não queremos que os erros do passado se repitam. Isso só se consegue se tratarmos a hemofilia pelo princípio da precaução. Quando aconteceu [a infeção dos hemofílicos com os vírus da sida e da hepatite C], o critério era o preço e ninguém ligou aos avisos», disse.