Dizer a um doente que tem cancro e pouco tempo de vida não é fácil, por mais experiente que seja o médico. O desafio é permanente e os profissionais reconhecem que não há fórmulas mágicas para dar más notícias, escreve a Lusa.

Helena Gervásio dirige o Serviço de Oncologia Clínica do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra e contou à Agência Lusa que já foi confrontada várias vezes com a necessidade de dar más notícias aos doentes.

«Bom senso e sensibilidade»

As más notícias na doença oncológica significam dizer a um doente que este tem cancro. Em alguns casos, a esperança de vida não é assim tanta, apesar dos tratamentos terem cada vez maior capacidade de prolongar a vida dos pacientes e de curar algumas situações.

A também presidente da assembleia-geral da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) revelou que não existe um protocolo que indique aos médicos como dar estas más notícias. «Está em causa o bom senso e a sensibilidade», disse.

Há, contudo, regras que os médicos devem seguir, as quais estarão em debate na próxima sexta-feira durante um simpósio promovido pela Coordenação Nacional para as Doenças Oncológicas (CNDO) sobre «Treino de aptidões de comunicação em oncologia clínica».

Treino de aptidões

O encontro, que se realizará em Lisboa, marcará o arranque do programa-piloto, a nível nacional, de treino de aptidões de comunicação para médicos da área de oncologia.

Na apresentação do simpósio, que contará com a presença de vários especialistas nacionais e internacionais, a CNDO refere que «a comunicação é uma área de competência essencial nos cuidados oncológicos».

«Dar más notícias aos doentes é uma difícil tarefa, com a qual os médicos da área de oncologia são frequentemente confrontados na sua prática clínica, sem que contem com qualquer apoio de formação específica a este nível, quer curricular, quer complementar, ao contrário do que acontece noutros países», acrescenta a Coordenação.

A médica Helena Gervásio lembra que o impacto de dar estas notícias é de tal ordem nos clínicos que existem mesmo alguns países que prolongam o período de férias destes profissionais para que estes se restabeleçam.

Médicos também fazem luto

A especialista afirma que os médicos chegam a passar por um período de «luto» quando perdem os doentes, embora esta dor seja superada graças ao sucesso que é alcançado em outros.

Helena Gervásio recorda dois casos que a marcaram especialmente. O primeiro foi quando teve de dizer a uma jovem de 15 anos com um tumor embrionário no útero que esta precisava fazer um tratamento que a iria fazer perder o cabelo, sendo que a adolescente em questão tinha uma cabeleira «muito linda».

«Era uma jovem que estava a nascer para a vida, muito bonita e com um cabelo lindíssimo e foi um choque quando soube o que a esperava», disse.

Se quiser viver...

Encontrou a pior reacção numa mulher que se recusava a prolongar os tratamentos por causa dos seus efeitos. «Tive de dizer-lhe que ela tinha um cancro e que precisava de se tratar se queria viver».

«Ela disse-me que se eu lhe tivesse batido, não doía mais. Mas a notícia funcionou como terapia de choque porque ela aceitou tratar-se», adiantou.

Helena Gervásio não tem receitas mágicas para dizer a alguém que tem cancro, mas aposta no respeito pela verdade. «O doente tem de estar informado sobre a sua doença e sobre os tratamentos para a sua doença», disse.

«Quanto tempo tenho de vida?»

Cada doente é um doente e, por essa razão, os médicos vão adaptando as notícias à forma como estes vão reagindo aos tratamentos.

À notícia de que sofre de cancro, os doentes costumam responder com uma pergunta: «Quanto tempo tenho de vida?». Os médicos nem sempre sabem e, por isso, nunca respondem.