Nos próximos quatro dias, de acordo com o Diário de Notícias, deverão ser adiadas 1500 operações por dia devido as greves nacionais de médicos e enfermeiro. 

Apesar da greve dos médicos durar dois dias, tendo inicio esta terça-feira à meia noite, a greve dos enfermeiros prolonga-se até sexta-feira. Segundo Alexandre Lourenço, Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), a coincidência das greves não é negativa. 

As atividades são multidisciplinares, portanto se faltar um enfermeiro têm de ser canceladas. Se faltar um médico também. Neste caso, sendo uma greve de enfermeiros e de médicos, acaba por limitar muito o impacto. Seria pior se fossem em dias diferentes".

Estamos numa época do ano onde não há tantas operações como no inverno. Alexandre Lourenço revela que as operações vão ser "reagendadas com relativa rapidez". Algumas dessas operações foram antecipadas e a outras irão ser feitas nos próximos meses. 

Os profissionais têm algum cuidado com as cirurgias programadas, muitas vezes até sobrecarregando os seus horários noutros períodos".

Sindicatos pedem reformulação do SNS

Os representantes sindicais admitem que as sucessivas paralisações afetam os doentes, mas acreditam também que estes entenderão a necessidade de recorrer à greve. Quer enfermeiros, quer médicos pedem a dignificação da profissão e do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Os médicos avançam com a paralisação nacional depois da greve do ano passado e das duas de 2017, "porque se fartaram de ser interlocutores empenhados de um Governo e um Ministério da Saúde que agem com deliberado desrespeito e sem real interesse em chegar a acordo sobre uma imensidade de questões", afirma o Sindicato Independente dos Médicos (SIM), responsável pela convocatória do primeiro dia de greve.

João Proença, presidente da Federação Nacional dos Médicos revela que "não há concursos, pagam mal às pessoas e trabalha-se 60 horas por semana com horas extras. E isto tudo é decidido de forma inusitada, desorganizada e desmoralizante". 

Os enfermeiros reclamam o descongelamento das progressões nas carreiras, a definição dos 35 anos de serviço e a possibilidade de aposentação a partir dos 57. O Sindicato Democrático dos Enfermeiros Portugueses, responsável pela greve, pede ainda medidas compensatórias do desgaste, risco e da penosidade da profissão.

Esta não é a primeira paralisação dos enfermeiros este ano a afetar os blocos operatórios. A primeira levou ao cancelamento de quase oito mil cirurgias e a segunda a mais de cinco mil. Nesta última, o Governo decretou uma requisição civil e publicou um parecer para travar o efeito prático da greve. De acordo com o Diário de Notícias, há um ano, os enfermeiros já tinham parado durante um mês e meio nos blocos operatórios em cinco hospitais, o que levou ao adiamento de mais de 7500 cirurgias, com custos superiores a 12 milhões de euros para as unidades hospitalares.

Governo diz que há mais profissionais. Ordens afirmam que não é suficiente

O governo tem insistido num aumento dos profissionais de saúde nos últimos quatro anos. Segundo os dados do Ministério da Saúde, desde 2015 entraram para o SNS 10.816 profissionais - o que corresponde a um aumento de 9%.

Já a Ordem dos Médicos reconhece o aumento em termos absolutos, mas não em termos de trabalho. Uma vez que há menos médicos a trabalhar em exclusividade para o SNS, a população está mais envelhecida e por isso tem mais necessidade de cuidados hospitalares e também o corpo médico é composto por profissionais envelhecidos (muitos que já não fazem sequer urgência - opção que têm a partir dos 55 anos).

Também a Ordem dos Enfermeiros fala na mesma falta de recursos humanos, argumentando que não existem enfermeiros suficientes para cumprir as necessidades da passagem das 40 para as 35 horas de trabalho semanais.

Adesão entre os 75% e 85%, algumas unidades chegam aos 100%

A greve nacional dos médicos está esta manhã a registar uma adesão entre os 75% e os 85%, havendo unidades de saúde que chegam aos 100%, segundo o Sindicato Independente dos Médicos.

O secretário-geral do SIM, Roque da Cunha, indicou que a Medicina Geral e Familiar está a ter uma adesão entre os 80 e 85%, enquanto nos blocos operatórios ronda os 80%.

Nas consultas externas dos hospitais, a primeira adesão estimada pelo sindicato aponta para 75% a 80%.

Segundo Roque da Cunha, há casos em que a paralisação é total, como no Hospital S. José, em Lisboa, em que os cinco blocos cirúrgicos estão todos em greve.

Também no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e no Hospital Pediátrico da Estefânia, em Lisboa, a adesão à greve está a rondar os 100%.

O Hospital de São João, no Porto, tem esta terça-feira apenas três das 12 salas de cirurgia a funcionar e algumas consultas foram canceladas, levando doentes a fazer deslocações “ao engano”.