O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, defendeu no sábado a criação de um programa excecional para recuperar atrasos nas consultas, cirurgias e meios de diagnóstico devido à covid-19.

“Se não tivermos um programa excecional nunca vamos recuperar aquilo que perdemos”, disse, no sábado à noite, em entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios, defendendo que esse programa deve durar alguns meses, porque caso contrário muitos doentes vão “perder a oportunidade de tratamento”.

Miguel Guimarães insistiu que o Ministério da Saúde não está a fazer o suficiente nesta matéria e que as pessoas precisam de uma resposta “agora”.

Nas contas do bastonário, comparando março, abril e maio de 2020 com os mesmos meses do ano passado, este ano, por causa da pandemia do novo coronavírus, fizeram-se menos três milhões de consultas nos cuidados primários (menos 57%), menos 900 mil consultas nos hospitais (redução de 38%), e menos 93 mil cirurgias. Nos mesmos meses deste ano foram às urgências menos de metade (44%) das pessoas e ficaram por fazer “milhões” de exames complementares de diagnóstico.

Na mesma entrevista, o responsável afirmou-se também preocupado com a “exaustão” dos profissionais de saúde, que no primeiro semestre do ano já fizeram mais 17% de horas extraordinárias, e disse que “os médicos precisam de parar um bocado” porque “não parar pode ter consequências desastrosas” para os profissionais.

Quanto ao número de médicos infetados com covid-19, o bastonário disse que num inquérito feito pela Ordem, dos 2.600 questionários respondidos 49 disseram que estavam ou tinham estado infetados, pelo que transpondo para o universo total de médicos indica que 1.017 estão ou já estiveram infetados, o que corresponde a 2% da classe.

Quanto ao prémio aos profissionais de saúde envolvidos no combate à pandemia, aprovado pela Assembleia da República no início do mês, Miguel Guimarães afirmou que os profissionais não precisam de um prémio, mas sim da revisão da carreira, porque “têm das carreiras mais desvalorizadas da Europa”. A ministra da Saúde, disse, não tem valorizado o trabalho dos médicos.

O bastonário voltou a alertar para a possibilidade de uma segunda vaga da epidemia no inverno e considerou fundamental reforçar a vacina para a gripe, reforçar já a capacidade de internamento e pensar em dois hospitais de retaguarda, um para Lisboa e outro para o Porto.

Portugal teve até hoje 48.390 infeções por covid-19, dos quais resultaram 1.684 mortes, segundo os últimos números da Direção-Geral da Saúde.

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