O aumento do uso da tecnologia pode estar a substituir eventuais dependências alcoólicas disse à Lusa a primeiro-tenente Médico Naval Diana Terra, autora de um estudo sobre o consumo do álcool nas Forças Portuguesas destacadas.

O que parece haver em relação a dependências e, tomando em conta a idade jovem dos atuais militares em missão, é a dependência da eletrónica – dos jogos – do que propriamente a relação com o álcool”, disse à Lusa Diana Terra acrescentando que se trata de uma ideia que deve ser estudada junto das Forças Nacionais Destacadas.

“Trata-se de forças especiais, têm respeito pelo corpo e pela boa forma física e acham menos problemático outro escape, porque o álcool era muitas vezes utilizado como escape. Hoje em dia veem como escape a eletrónica, incluindo os jogos. O que estamos a assistir é a uma mudança de paradigma da forma como a nossa juventude, que integra as nossas fileiras, faz a gestão do próprio stress”, refere.

A primeiro-tenente Médico Naval é autora de um estudo inédito das Forças Armadas sobre a “prevalência de distúrbios do consumo de álcool em militares portugueses integrados em Forças Nacionais Destacadas”.

O estudo foi elaborado com base em inquéritos realizados a 398 militares que estiveram envolvidos em missões nos últimos dois anos (2015-2017): KFOR (Kosovo), Iraque, Saara Express (missão da Marinha em África), MINUSMA (missão da Força Aérea no Mali) e Operation Sea Guardian, uma missão da NATO que integrou a Marinha Portuguesa.

Na investigação foi utilizada a escala “Alcohol Use Disorders Identification Test” (AUDIT) da Organização Mundial de Saúde sobre o consumo de álcool tendo sido detetado que o consumo de risco, consumo nocivo e provável dependência, corresponde a 8,3% (do total dos inquiridos) de acordo com os índices da escala da OMS.

Eu estava à espera de encontrar uma taxa maior no consumo de álcool. Hoje em dia, há dentro das Forças Armadas uma cultura do corpo que começa a ser muito intensa e que pressupõe a boa forma física. Os nossos jovens são pessoas que estão nas Forças Armadas motivados porque neste momento não há serviço obrigatório, são voluntários, e são pessoas motivadas que respeitam muito o seu corpo. Portanto, o consumo de álcool é uma coisa muito pontual”, admite a investigadora.

“Atualmente estamos mais alerta para intervir, semanalmente fazemos testes de álcool ao pessoal de serviço, e ao consumo de substâncias, através de análises na urina. São testes aleatórios”, acrescenta, sublinhando que o risco de consumo geral é baixo.

Segundo Diana Terra, o objetivo da investigação foi o de identificar áreas especificas onde é “benéfico” melhorar a saúde dos militares.

O que foi assumido foi a de que ao encontrarmos uma taxa de tabagismo muito superior à da população portuguesa no geral e sendo que o próprio tabagismo está associado a um risco maior de consumo de álcool, uma das coisas que assumimos que deveríamos intervir era ao nível do tabagismo”, indicou referindo-se a um dos pontos da investigação sendo que as Forças Armadas estão ainda a desenvolver estratégias para aplicar na prática as conclusões do estudo na prática.

A investigadora refere que já existem estruturas de apoio como Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependência e Álcool (UTITA) que foi desenvolvida nas Forças Armadas, integrada na Marinha, e que, afirmou, é um dos centros de referência para a Administração Regional de Saúde, prestando apoio a civis, na base do Alfeite, margem sul do Tejo.