O major Rogério Martinho disse hoje em tribunal que o esquema de corrupção, que passava pela sobrefaturação no fornecimento de bens alimentares, “existia em todas as messes da Força Aérea", acusando os arguidos que o negarem de "mentir”.

“O esquema de sobrefaturação existia em todas as messes da Força Aérea. Estes meus camaradas que continuam a negar, não sei se se vão continuar a negar, mas que não admitem, estão a mentir”, afirmou o oficial, aludindo aos outros militares arguidos no processo Operação Zeus, com 68 arguidos, 30 dos quais militares e 38 civis, entre empresas e pessoas individuais, que começou na segunda-feira no Tribunal de Sintra.

Rogério Martinho, major atualmente na reserva, chefe da messe da Base Aérea n.º 5 (BA5), em Monte Real, Leiria, entre 2013 e 2015, foi o primeiro dos arguidos a prestar declarações no julgamento do processo sobre corrupção nas messes da Força Aérea.

Na primeira sessão, apenas mais dois dos 30 arguidos militares manifestaram vontade em prestar declarações perante o coletivo de juízes: o sargento-ajudante António Paulo (subordinado de Rogério Martinho) e o capitão Orlando Pinheiro.

Na sessão de hoje, a defesa de outros arguidos, nomeadamente a do capitão Luís Oliveira, informou que o seu constituinte também vai querer falar em julgamento. O major Rogério Martinho apontou o capitão Luís Oliveira como o homem que passava pelas messes da Força Aérea Portuguesa (FAP) dispersas pelo país para levantar os envelopes com o dinheiro proveniente do esquema, para ser depois distribuído pelos elementos da Divisão de Abastecimento e Transportes (DAT), chefiada à data, pelo major-general Raul Milhais de Carvalho, considerado pelo Ministério Público como o “cabecilha” do esquema de corrupção.

O major Rogério Martinho, que hoje continuou a ser ouvido, referiu que tomou conhecimento de que o esquema de sobrefaturação era transversal a todas as messes da FAP, após ter assumido, em 2013, a gestão da messe da BA5

“Era uma coisa [esquema de corrupção] enraizada. Não era preciso falar. Bastava olhar. Estava no automático”, relatou o oficial, sublinhando que “este problema não pode denegrir a imagem” da FAP, que tem “muita gente boa”.

O arguido contou ainda que o capitão Luís Oliveira era apenas “um correio” que fazia a “coleta” [levantamento dos envelopes com o dinheiro para a DAT, em Alfragide, Amadora] pelas unidades da FAP, com o objetivo de o entregar aos superiores hierárquicos da DAT.

O oficial na reserva contou que, quando era capitão, competia ao major-general Milhais de Carvalho, fazer o trabalho do capitão Luís Oliveira, de recolha dos envelopes com dinheiro.

Rogério Martinho relatou ainda que os envelopes com dinheiro eram entregues diretamente pelos fornecedores da messe da BA5 a si ou aos seus dois subordinados, sargentos António Gouveia e António Paulo, acrescentando que esses envelopes eram colocados num cofre e abertos quando houvesse uma quantia considerável.

Nesse momento, este arguido explicou que fazia “três montes” e que dizia aos dois sargentos para levantarem, aleatoriamente, um dos maços. Questionado várias vezes pelos advogados de outros arguidos, Rogério Martinho reiterou que, entre 2013 e 2015, ele e os seus dois subordinados terão arrecadado 60.000 euros cada um.

O oficial na reserva disse ainda que foi o capelão da Força Aérea que o “encorajou” a dizer toda a verdade, quando se encontrava preso preventivamente, em Tomar, ressalvando, que já tinha essa vontade de contar a verdade dos factos.

A audição do major Rogério Martinho prossegue na segunda-feira.

A audiência de hoje ficou ainda marcada por momentos de tensão entre Carlos do Paulo, advogado de Rogério Martinho, e advogados de outros arguidos, quando o seu constituinte estava a ser questionado por um dos advogados.

Sem mencionar nomes, Carlos do Paulo falou em “cinismo e hipocrisia”, o que provocou visível desagrado e desconforto aos restantes advogados, dando azo a uma troca de acusações entre advogados e à intervenção da presidente do coletivo de juízes, Susana Marques Madeira, que interrompeu a sessão por alguns minutos.

Segundo a acusação do MP, pela sobrefaturação na aquisição de bens alimentares e matérias-primas para a confeção de refeições nas messes da FAP e do Hospital das Forças Armadas, os miliares envolvidos recebiam dinheiro e presentes dos fornecedores, em função da intervenção de cada um.