O diretor da Polícia Judiciária classificou esta terça-feira em tribunal como "enviesados" os comportamentos da PJ Militar (PJM) na investigação do furto de armamento dos paióis de Tancos e afirmou que estes atrasaram vários meses a descoberta dos autores do crime.

Ficámos estupefactos com os comportamentos enviesados da PJM à margem, eu diria, dos cânones do Código Processo Penal e se não fossem esses comportamentos estou convencido que estaria tudo resolvido e os autores [do furto] identificados em julho ou agosto", afirmou Luis Neves, que depôs como testemunha no processo Tancos e que, à data dos factos, era diretor da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT)

O depoimento do diretor da PJ foi muito critico da atuação da congénere militar no caso do furto do armamento dos paióis de Tancos, em junho de 2017, classificando-a de "vazador de informações".

Se tudo tivesse acontecido num quadro de normalidade, os autores do furto estariam identificados em julho", afirmou.

Contudo, adiantou, determinadas decisões da PJM prejudicaram e atrasaram o desenrolar da investigação, levando-o mesmo a proibir a partilha de dados sobre o andamento da investigação, a partir de finais de julho/agosto de 2017, algo que partilhou com o arguido e ex-diretor da polícia militar Luis Vieira.

Não havia avanços [na investigação] porque as pessoas visadas estavam alertadas. Os encontros eram feitos com os telemóveis desligados, por exemplo", exemplificou.

O responsável máximo da PJ adiantou que no mesmo dia em que teve conhecimento do furto [na manhã de 29 de junho de 2017], o Ministério Público atribuiu informalmente a investigação à UNCT e que nessa tarde um elemento da polícia do Porto informou que havia uma investigação, que começou com uma denúncia de Paulo Lemos "Fechaduras", que poderia estar associada ao furto de Tancos.

Segundo Luis Neves, este elemento "não era informador da PJ, no sentido lato".

Sobre a ida de elementos da PJM e do autor confesso do furto, João Paulino, ao Algarve, com intermediação de elementos da GNR de Loulé - arguidos no processo - referiu que foi tudo feito à revelia da PJ.

Segundo o diretor da PJ, desde 30 de junho que ambas as polícias tinham conhecimento que o arguido João Paulino era um dos suspeitos do furto na unidade militar, considerando como uma "monstruosidade, tratar ou trabalhar com um suspeito como informador", algo que a PJM fez.

João Paulino "jamais poderia ser trabalhado como informador da PJ, porque os nossos informadores não praticam crimes, nem são suspeitos", observou.

Na opinião de Luis Neves, "foram cometidas barbaridades para destruir a investigação" do caso, que abalou as forças armadas e que criou conflitos entre as duas PJ.

O processo de Tancos tem 23 arguidos, nove respondem por associação criminosa, tráfico e mediação de armas e terrorismo e pelo alegado envolvimento no furto do armamento, um por tráfico de droga e os restantes 13, entre eles o ex-ministro Azeredo Lopes, dois elementos da PJM e vários militares da GNR, sobre a manobra de encenação/encobrimento na recuperação do material na região da Chamusca, numa operação que envolveu a PJ Militar, em colaboração com elementos da GNR de Loulé.

/ HCL