Começa esta quarta-feira a fase de instrução do surto de legionella que ocorreu em Vila Franca de Xira em 2014, que causou a morte a 14 pessoas. A acusação do Ministério Público (MP) refere 76 vítimas no caso, mas há muitas outras que ficaram fora do processo.

É o caso de Raul Lopes, uma das 330 pessoas que não constam da acusação do MP. Este homem compareceu no tribunal de Loures, onde decorre esta primeira fase.

Não se pode tratar uma pessoa de uma forma e outra de outra [forma]. A bactéria é a mesma", afirmou Raul Lopes à TVI.

Este homem afirma que nem sequer é da região de Vila Franca de Xira. No entanto, houve um dia em que teve a necessidade de passar quatro vezes na autoestrada junto das torres de refrigeração da Adubos de Portugal (um dos arguidos no processo), local onde terá começado o surto de legionella.

Passei quatro vezes na autoestrada, daí ter contraído a bactéria", acrescentou.

Raul Lopes começou a desenvolver febres altas e alguma fraqueza física. Recorreu a três médicos e chegou a ir ao Hospital São Francisco Xavier. Foi-lhe diagnosticada uma pneumonia bacteriológica, seguindo depois para o Hospital Egas Moniz. Devido à gravidade da situação, Raul Lopes acabou por ser transferido para os cuidados intermédios do Hospital de Santa Maria, onde esteve em coma induzido.

Acabou por conseguir ultrapassar o episódio, mas afirma que ainda sente alguns problemas sempre que apanha um pouco mais de frio.

Não sei se não poderão vir outras sequelas mais tarde", referiu Raul Lopes.

Relativamente a eventuais acordos, este homem recebeu uma proposta de indemnização em três mil euros, mas acabou por não aceitar, uma vez que se sente discriminado face a outras vítimas do surto.

A abertura de instrução foi requerida pela Adubos de Portugal, pela SUEZ II e por mais sete quadros destas empresas (os nove arguidos), e ainda pelo município de Vila Franca de Xira e por 53 pessoas, 49 das quais afetadas pelo surto, mas que não constam como vítimas na acusação do MP.

Nos autos constam 36 acordos já alcançados entre a Adubos de Portugal e a SUEZ II, de entre as 73 pessoas afetadas pelo surto de legionella, mas fonte ligada ao processo adiantou à Lusa que ainda estão em curso negociações com outras das 73 vítimas, as quais poderão culminar com um número de acordos “bastante mais elevado” face aos 36 já conseguidos.