A voz rouca do canto gregoriano deve-se aos únicos quatro monges da Cartuxa, dois octagenários e dois nonagenarios, que, por enquanto, continuam a viver em Portugal.

O sino marca as matinas, laudes, primas, terças, sextas, nonas, vésperas e completas. As horas são divididas como no calendário romano.

Na maior a parte do tempo os monges estão em comunicação direta com Deus, fechados na cela. O padre Antão é o prior, é ele quem diz a missa conventual às 3 da manhã há mais de 50 anos. Tem 85 e a vocação surgiu aos 20, quando frequentava a Faculdade de Letras, em Madrid.

Antão na Ccartuxa, Eduardo de batismo, queria morrer neste mosteiro, onde estão enterrados todos monges que viveram aqui antes dele. Os cartuxos veem na morte o último degrau para o céu... Vão à terra sem urna, sepultados sem nome, só interessa o rosto de Deus.

Concluída no seculo XVI, Santa Maria Escada para o céu foi tomada pelo estado e transformada em escola agrícola. A igreja, hoje património nacional, chegou a servir de celeiro. Foi o conde Vilalva que a reergueu já no seculo XX e a devolveu à ordem. Deu autonomia total aos eclesiásticos e criou a Fundação Eugénio de Almeida, onde proibiu outra função para o mosteiro que não a da clausura.

Mais tarde surgiu o vinho da Cartuxa que os homenageia, hoje mundialmente conhecido.

Para além do padre Antão vivem neste mosteiro do séc. XVI mais três homens de clausura: o irmão António, que não quis fazer o sacerdócio; o padre Isidoro que, com apenas 18 anos, decidiu ser cartuxo e hoje tem 92; e o irmão José, um ano mais novo, que foi marceneiro. São todos espanhóis, à exceção de António, português de Moçambique e ex-trabalhador das alfândegas.

A comunicação com o convento faz-se através dos jornais, por telefone ou presencialmente. Não há televisão nem rádio por uma simples razão: são os monges que decidem o que querem ler e quando querem ser informados. O noticiário das oito interrompe o silêncio e pode coincidir com a liturgia.

Se pouco sabem sobre política, nada escapa sobre o que se passa na Igreja e, em terra comunista, em que nem o 25 de abril os derrotou, foram vários os arcebispos que de tudo fizeram para que a ordem monástica masculina continuasse no Alentejo. Mas, esmagado por uma resposta, D. Senra Coelho limitou-se a procurar outra ordem que aceitasse  um deserto de oitenta hectares, com oásis de ciprestes e um mosteiro de ouro e mármore com tesouros do reinado de D. João V.

A vocação monástica na europa está a acabar. Apesar de não ser necessária preparação cultural para entrar, apenas ter entre 18 e 45 anos e sentir a presença de Deus, hoje já não há candidatos.

E a dias de partirem para Montalegre, Barcelona, o ritual mantém-se: o dia começa às 6h30 da madrugada. Acordam, às 7h45 a oração em cela, das oito às nove missa cantada, depois três horas de trabalho e leitura. Ao meio-dia almoçam, a única refeição servida no dia que serve também para o jantar.

Os monges não comem carne como voto de sacrifício e comem pouco devido às muitas horas de leitura.

À tarde trabalham, antes de irem dormir às 20h30, para acordarem à meia-noite para a missa cantada até as 3 da manhã.

Só falam uns com os outros, ao domingo, em homenagem a S. Bruno, nascido em Colónia, em 1032, que criou a ordem com mais seis amigos, para que se ajudassem uns aos outros. Durante a semana, apenas comunicam por bilhetes e letreiros.

As despesas são reduzidas ao mínimo e, até há bem pouco tempo, vendiam laranjas e tinham vacas charolesas. O sino, esse, vai tocar até dia 30 de outubro as horas certas para relembrar a cidade que os cartuxos oram por nós.

Filipa Calado