O realizador de televisão Nuno Teixeira morreu hoje, aos 74 anos, informou a RTP, a cujos quadros pertenceu durante mais de três décadas e para a qual dirigiu a primeira telenovela portuguesa, "Vila Faia".

Morreu um nome histórico da RTP, Nuno Teixeira. Foi o realizador de (...) 'Vila Faia' e de tantos programas de sucesso como 'O Tal Canal' ou o 'Casino Royal' de Herman José. Tinha 74 anos", escreveu a televisão pública na sua página oficial no Facebook.

Nascido em Silgueiros, no distrito de Viseu, Nuno Teixeira teve uma longa carreira na RTP, iniciada nos estúdios do Porto e, depois, firmada em Lisboa, através de dezenas de programas, como "Sabadabadu", distinguido no Festival Rose d'Or, de Montreux, na Suíça, em 1981.

Foi também responsável pelos tempos de antena da primeira campanha presidencial de Mário Soares, em 1985, e esteve associado à campanha do Partido Socialista para as legislativas de 1995.

Com uma carreira de décadas que atinge o auge nos anos de 1980 e 1990, Nuno Teixeira está sobretudo associado a programas como "Sabadabadu" (1981), com Ivone Silva e Camilo de Oliveira, e aos sucessos de Herman José "O Tal Canal" (1983), "Humor de Perdição" (1987-1988) e "Casino Royal" (1990), sem esquecer as primeiras telenovelas portuguesas.

"Mesmo que 'Vila Faia' não tenha o êxito de 'Gabriela', a grande vitória desta produção é o facto de se conseguir pôr a trabalhar cerca de 70 pessoas, técnicos e atores, e de ficar a funcionar um estúdio", disse o realizador, na altura do início da rodagem da telenovela, citado pelas páginas de história da RTP. "Ao menos que a experiência e aquilo que fica de pé possa servir no futuro", desejou.

Serviu. As novas produções do género sucederam-se e, além de "Vila Faia", Nuno Teixeira dirigiu também "Origens" (1983), "Passerelle" (1988) e "Chuva na Areia" (1985), baseada no romance de Luís de Sttau Monteiro "Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão".

O realizador foi também responsável pela direção regular de séries televisivas como "Eu Show Nico" (1988), com Nicolau Breyner, e "Os Bonecos da Bola" (1993), com Ana Bola, destacando-se em particular "Lá em Casa Tudo Bem" (1987-1988), a primeira comédia a ser gravada com público “ao vivo”, protagonizada por Raul Solnado e Armando Cortez, e escrita por Mário Zambujal, entre outros autores.

Nuno Teixeira dirigiu ainda produções dramáticas como a versão televisiva de "Mãe Coragem e Os Seus Filhos" (1987), de Bertolt Brecht, encenada por João Lourenço, para o Teatro Aberto, e protagonizada por Eunice Muñoz, que lhe valeu o prémio de melhor adaptação teatral para televisão.

Para a dimensão do pequeno ecrã, o realizador transpôs várias produções de ópera das temporadas do Teatro Nacional de São Carlos.

Trabalhou ainda com Mário Viegas nos programas "Palavras Ditas" (1984-1985) e "Palavras Vivas" (1990-1991), de divulgação da literatura portuguesa e dos seus autores.

No seu percurso destaca-se ainda a realização de sete Festivais da Canção, entre 1981 e 1995, de programas musicais como "Olha que Dois" e "Frou-Frou", do espetáculo "Algumas Canções do Meu Caminho", que Simone de Oliveira levou à Sala Garrett do Teatro D. Maria II, em Lisboa, e de algumas das principais competições desportivas, transmitidas pela televisão pública.

Foi responsável pela Direção de Produção da RTP, tendo representado esta estação em organismos internacionais de televisão e do audiovisual.

Em janeiro de 2017, em reação à morte de Mário Soares, Nuno Teixeira recordou à Lusa o período da campanha presidencial de 1985, e o convite que o então candidato lhe fizera.

“Já o conhecia de nome, pois estava mais ou menos a par do que se ia passando na oposição portuguesa [à ditadura, anterior ao 25 de Abril de 1974], e já tinha uma grande admiração por ele. Pessoalmente, conheci-o quando me desafiou a realizar os tempos de antena na televisão, estavam as sondagens [de Mário Soares] nos sete por cento”, recordou.

“Não tive dúvidas nenhumas em aceitar”, declarou então, emocionado, afirmando que Soares foi “a pessoa de que o país precisava nos anos quentes da revolução” e “conseguiu, com o seu prestígio, com a sua inteligência, manter o país no lado correto da vida”.

Em 1995, Nuno Teixeira recebeu as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Mérito.

É pai do realizador Duarte Teixeira, um dos diretores do 'remake' de "Vila Faia", em 2007/2008.

Governo elogia contributo do realizador para a cultura portuguesa

A ministra da Cultura lamentou a morte do realizador Nuno Teixeira, "personalidade de destaque da ficção televisiva em Portugal", elogiando o seu "contributo transversal" para a cultura portuguesa.

Nuno Teixeira marcou a televisão portuguesa na década de oitenta, seja pelo seu trabalho pioneiro nas primeiras telenovelas portuguesas, como 'Vila Faia', 'Origens' e 'Chuva na Areia', seja pelo seu contributo na programação de humor da RTP, com marcos da televisão pública como 'Sabadabadu', 'O Tal Canal', 'Humor de Perdição', 'Eu Show Nico' ou 'Casino Royal'", lê-se na mensagem de Graça Fonseca.

A ministra da Cultura recorda ainda o trabalho de Nuno Teixeira com o ator Mário Viegas, nos programas “Palavras Ditas” e “Palavras Vivas”, que "tiveram um papel fundamental em dar a conhecer ao público português o nosso vasto património literário e os nossos autores".

"A sua colaboração com Herman José", prossegue Graça Fonseca, "ficará na história da televisão portuguesa, com ideias e abordagens que, a partir da televisão pública, revolucionaram o humor televisivo e inspiraram gerações de humoristas portugueses que ainda hoje reconhecem nestes programas o exemplo e uma fonte inesgotável de inspiração".

"O contributo de Nuno Teixeira para a cultura portuguesa é transversal, tendo também transposto para o pequeno ecrã peças de teatro e várias produções do Teatro Nacional São Carlos", lembra.

Velório do realizador na sexta-feira e funeral no sábado

O velório do realizador Nuno Teixeira vai decorrer na Basílica da Estrela, em Lisboa, na sexta-feira, e o funeral realizar-se-á no sábado, no cemitério do Alto S. João, anunciou a agência funerária.

O corpo do realizador Nuno Teixeira "estará em câmara ardente, na sexta-feira, dia 31 de julho, a partir das 18:00 nas Capelas Exequiais da Basílica da Estrela, em Lisboa. No sábado, 1 de agosto, após as exéquias fúnebres, seguirá às 11:00 para o crematório do cemitério do Alto S. João, em Lisboa", lê-se no comunicado divulgado hoje à noite.