A pandemia parece ter vindo alterar o panorama da morte em Portugal. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, entre 2 de março (altura em que foram registados os primeiros casos de infeção por covid-19 em Portugal) e 1 de novembro, se registaram mais mortes fora de contexto hospitalar. Dos 77.249 óbitos registados neste período, que já de si constituem um aumento da mortalidade face à média dos anos entre 2015 e 2019, 31.124 ocorreram fora de contexto familiar.

Ou seja, morreram mais 5.817 pessoas no domicílio ou noutro local do que na média dos últimos quatro anos, em período idêntico.   

Mais de dois terços do acréscimo de óbitos entre 2 de março e 1 de novembro, relativamente à média dos últimos 5 anos, ocorreu fora dos hospitais”, conclui o INE.

Estes dados não são homogéneos no tempo. Há semanas em que o fenómeno se verifica de forma mais evidente: “O excedente de óbitos fora do contexto hospitalar é importante ao longo de todas as semanas, mas especialmente até meados de julho (semana 28). Nas três semanas seguintes (13 de julho a 2 de agosto) o aumento dos óbitos repartiu-se de forma mais equilibrada entre meio hospitalar e fora desse contexto. A contribuição dos óbitos fora do contexto hospitalar acentuou-se nas semanas 32 a 36 (3 de agosto a 6 de setembro)”.

Em declarações ao Diário de Notícias, Jorge Almeida, diretor do maior serviço de medicina interna do país, que integra o Hospital São João, no Porto, defende que a “maior causa de morte foi não terem ido aos cuidados de saúde”. Defende o responsável que, por medo de contrair o vírus, os doentes retraíram-se na procura de cuidados hospitalares e pode residir aí a causa do aumento de mortes fora de contexto hospitalar.

Não porque não houvesse capacidade de resposta por parte das unidades de saúde, mas porque tinham medo da covid-19, de serem infetadas, e deixaram-se ficar em casa, deixaram agravar o seu estado de saúde ao não procurarem cuidados."

Entre 2 de março e 1 de novembro, morreram 38.262 homens e 38.987 mulheres. Ou seja mais 3.732 e 4.953 óbitos respetivamente, em relação à média dos últimos quatro anos, no mesmo período.  

Nas semanas 11 e 12 este aumento de mortalidade resultou maioritariamente de óbitos masculinos. A partir desse momento a contribuição dos óbitos de mulheres para o aumento do número de óbitos foi em geral superior, com maior expressão no mês de julho (semanas 28 a 32). Nas últimas três semanas, a contribuição dos óbitos masculinos volta a ser superior, representando 57,37% e 52,05% do aumento de óbitos nas semanas 41 e 42 (entre 5 de outubro e 1 de novembro), respectivamente”, esclarece o INE.

No período em análise, registou-se um aumento do número de óbitos de cidadãos com mais de 75 anos. “Mais de 70% dos óbitos (55 024 óbitos) foram de pessoas com idades iguais ou superiores a 75 anos e, destes, cerca de 60% (32 878) foram de pessoas com 85 e mais anos”, adianta o documento do INE.

Ou seja, comparativamente com a média de óbitos observada no período homólogo de 2015-2019, morreram mais 7.449 pessoas com 75 e mais anos, das quais mais 5.802 com 85 e mais anos.

Manuela Micael