José Sócrates afirmou esta quarta-feira em entrevista à TVI que foi acusado de "novos crimes" e rejeitou ter sido corrompido pelo amigo Carlos Santos Silva.

O crime de corrupção por simpatia apresentado pelo juiz Ivo Rosa "não consta na acusação", é "falso" e já "não existe no código penal".

É absolutamente falso e injusto. Injusto para comigo e para com Carlos Santos Silva. Eu nunca pratiquei nenhum acordo com o Carlos Santos Silva", afirmou.

 

Ele (juiz Ivo Rosa) considerou que havia indícios para levar isto a tribunal, mas eu nunca pude apresentar provas contra esta acusação. Nunca ninguém me disse que Carlos Santos Silva me corrompeu", continuou.

Perante as acusações de que se diz alvo, o ex-primeiro-ministro sublinha que antes de se culpar alguém em tribunal, "tem de haver o direito de se defender". 

É um crime novo. Nunca disseram ao Carlos Santos Silva que era um corruptor ativo. Aos visados nunca foi dada hipótese de defesa. Aquilo que há de mais diabólico na justiça: que é vou te levar a julgamento por um crime que te escondi. Nem te poderás defender no futuro porque prescreveu. Estão enganados, porque eu vou me defender disso".

 

Nunca o engenheiro Carlos Santos Silva foi apontado como meu corruptor. O engenheiro Carlos Silva não está em nenhum momento do processo como corruptor ativo?", questionou ainda.

Recorde-se que, na sexta-feira, Ivo Rosa considerou que José Sócrates “mercadejou” o seu cargo de primeiro-ministro aquando das ocasiões em que recebeu elevadas quantias de dinheiro do empresário - e seu amigo - e que por isso poderia existir um crime de corrupção passiva sem demonstração de ato concreto.

'Empréstimo de amigo'

Sobre a alegada utilização de expressões código como "fotocópias" ou "documentos" para se referir a dinheiro, Sócrates referiu "não ser verdade".

Não tenho memória que numa conversa com o Carlos, eu tenha falado em fotocópias para falar de dinheiro (...) Nunca utilizei a expressão 'aquilo que gosto tanto' para me referir a dinheiro", disse o ex-governante.

Sobre o dinheiro que recebeu do amigo Carlos Santos Silva, Sócrates afirmou que foi o próprio que se ofereceu para o ajudar. "Isso foi em 2013 ou 2014. Eu estava afastado da vida política", contou.

Nessa altura, Sócrates vivia em Paris e nega que vivesse uma vida luxuosa.

Todos os dinheiros referem-se aos empréstimos que Santos Silva me fez. Desde o primeiro dia em que fui interrogado, eu e Santos Silva demos a mesma explicação: ele decidiu financiar-me e ajudar-me", considerou.

Decisões de Ivo Rosa 

Sobre a polémica que se gerou depois dos crimes que caíram em tribunal (Sócrates estava imputado de 91 crimes, mas só ficou acusado de seis), José Sócrates diz que Ivo Rosa "não fez mais do que o seu dever."

Não nutro nenhuma simpatia nem antipatia para Ivo Rosa. As decisões que ele tomou não foram mais do que o dever dele. Ele não o fez porque gosta de mim", apontou.

O ex-primeiro-ministro disse ainda que o juiz "decidiu deitar aquilo tudo abaixo porque não tinha outra alternativa. Porque provámos que aquelas mentiras eram estapafúrdias".

A par de Ivo Rosa, também a escolha do juiz Carlos Alexandre para a fase de investigação da Operação Marquês foi criticada por Sócrates, dizendo mesmo que foi o "escândalo de que ninguém quer falar".

A escolha foi manipulada", reiterou taxativamente José Sócrates.

Sócrates afirmou mesmo que Ivo Rosa não tirou as devidas conclusões desse ato e que foi injusto em não anular alguns dos factos, ao mesmo tempo em que voltou a dizer que tinham prendido "um inocente". 

Havia inexistência de provas para estar preso durante 11 meses", disse ainda.