Começou tudo naquele dia em que andavam a circular nas redes sociais imagens das ambulâncias em fila à porta dos hospitais. Ricardo Paiágua sentiu que tinha de fazer alguma coisa: "Acho que nós estamos todos um bocado em baixo. No primeiro confinamento, as pessoas mobilizaram-se, havia muita gente a querer ajudar. E, desta vez, parece que as pessoas estão mais cansadas e mais resignadas. Eu vi aquelas imagens e decidi que tinha de fazer qualquer coisa."

Aos 38 anos, Ricardo Paiágua é um dos fundadores da agência de criatividade UppOut e já não é a primeira vez que usa os seus serviços em causas solidárias. Em abril do ano passado, a agência esteve envolvida noutros projectos de cariz social para fazer face a dificuldades geradas pela covid-19, como a plataforma Acolhe (Acolhe um herói, Acolhe uma refeição, Acolhe um trabalho, Acolhe um empresário) que tinha como principal objetivo pôr em ligação as pessoas que precisavam de ajuda e as pessoas que estavam dispostas a ajudar. Os contactos feitos no ano passado foram rapidamente reativados.

Ao ver as imagens das ambulâncias, a primeira coisa que nos ocorreu foi ter autocaravanas onde os doentes pudessem estar com algum conforto. Mas rapidamente percebemos que havia muitos riscos e não seria viável. Então, focámo-nos nos profissionais de saúde que estão todos muitos cansados e têm sido muito esquecidos nesta terceira vaga. Ao contrário do que aconteceu em março do ano passado, desta vez não há aplausos nem arco-íris pintados nas janelas. Achámos que poderíamos tentar dar-lhes um espaço para descansarem com algum conforto nas suas pausas", conta. "Criámos logo o site e lançámos a Cama Solidária nas redes sociais."

A primeira publicação no Instagram, logo no dia 21, dizia: "Durante este confinamento, o sistema nacional de saúde encontra-se com alguns desafios. Há pessoas que precisam de descansar, esperar. Vamos dar conforto a quem mais precisa". Os proprietários das autocaravanas só têm de ir ao site, indicar qual a disponibilidade da sua autocaravana e a região onde se encontra. Na mesma plataforma, os profissionais de saúde podem inscrever-se e dizer onde e quando precisam de um "abrigo". 

"Aconteceu tudo muito depressa", conta Ricardo Paiágua. Em poucos dias, o projeto reuniu mais de 2 mil voluntários, recebeu oferta de mais de 600 autocaravanas e também de muitas casas situadas perto dos hospitais. Ao mesmo tempo, percebendo que além de um sítio para descansar, os profissionais de saúde precisavam também de outras coisas, como refeições, mantas e produtos de higiene pessoal, a Cama Solidária organizou uma recolha de donativos.

Neste momento, as caravanas estão a funcionar sobretudo como pontos de recolha e de distribuição de donativos. Também estão disponíveis para os profissionais de saúde que queiram mas a maioria prefere ficar em casas. Já temos sete profissionais instalados em casas e temos mais de 100 pedidos que estamos a processar", explica o criativo. 

As quatro primeiras autocaravanas vieram da empresa Vanscape, uma empresa de aluguer de autocaravanas, e com elas veio Luísa Freire: "Eu andava à procura de um projeto de voluntariado para fazer durante este período em que não tenho trabalho, dei de caras com a Cama Solidária e achei que tinha tudo a ver comigo. Felizmente, o meu chefe também ficou entusiasmado com a ideia", conta Luísa, funcionária da Vanscape que agora é uma das responsáveis pelas autocaravanas que estão estacionadas no parque do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

No primeiro dia, apareceu a polícia, porque as autocaravanas não podiam estar estacionadas ali. Mas nós tratámos logo de tudo e agora não só já temos autorização da Emel para estacionar em todos os parques de Lisboa como fizemos uma parceria com a Emel para nos ajudar a distribuir todos os bens que nos são doados", explica Ricardo Paiágua.

Para além de Lisboa, o projeto quer chegar a todo país, e tem já extensões no Porto, em Castelo Branco, em Braga e noutras localidades. E Ricardo deixa o apelo: "Precisamos muito de casas para profissionais de saúde perto do hospital de Almada. Se houver alguém por aí que queira ajudar..."

Maria João Caetano