A evolução dos números da pandemia de covid-19 tem sido bastante positiva nestas últimas semanas, sublinhou esta segunda-feira Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, revelando que o índice de transmissibilidade da doença (RT) está agora nos 0,67%, o valor mais baixo registado em Portugal desde o início da pandemia e o valor mais baixo da Europa.

A tendência de redução é acentuada sobretudo desde 22 de janeiro e está abaixo de 1 em todas as regiões do pais, situando-se num valor abaixo do que tinha sido previsto, explicou Baltazar Nunes, na reunião de especialistas do Infarmed que se realiza esta tarde.

Tendo em conta estes dados, é possível prever que, até à segunda quinzena de março, o número de casos estará abaixo dos 2400 e o número de camas ocupadas nem UCI estará abaixo das 300 (até ao final de março estará abaixo das 200).

No entanto, sublinha este especialista, "tudo isto vai depender do grau de implementaçao das medidas e dos comportamentos da população, assim como do controlo das novas variantes".

Nada do que prevemos está garantido", referiu, "vai depender de conseguirmos manter a atual tendência de decréscimo de novos casos e esta tendência depende das medidas atualmente implementadas, da sua adoção pela população assim como dos comportamentos preventivos da população e do controlo da transmissão das novas variantes do SARS-CoV-2 que ainda representam são muito prevalentes a população”, afirmou o investigador.

Medidas tiveram impacto a partir de 22 de janeiro

Em relação ao excesso de mortalidade no mês de janeiro, quando ocorreu o pico da pandemia, estima-se que 74% possa ser atribuído à epidemia de covid-19 (cerca de 8900 óbitos) e 19% às baixas temperaturas. 

A "descida muito acentuada da transmissibildiade verifica-se a partir de meados do mês de janeiro". Sobre o impacto das medidas, fica claro que o primeiro pacote de medidas teve um impacto heterogéneo no país (0,1 a 2,6 % de redução) e não foi suficiente, mas que o confinamento determinado a 22 de janeiro (e o encerramento das escolas) foi muito mais efetivo. A redução de casos foi então "mais acentuada e mais homogéna", variando entre -8,3% em Lisboas e Vale do Tejo e -9,3% no Algarve e no Norte.

A redução foi muito clara sobretudo nos grupos etários entre os 15 e os 45 anos e na população com mais de 80 anos.

Baltazar Nunes observou ainda que Portugal é atualmente “um dos países com mais medidas restritivas de confinamento e apresenta uma redução da mobilidade na área do retalho das mais baixas da Europa”. Em termos de contactos sociais, verificou-se uma redução do número contactos sociais na população portuguesa em linha com a redução da mobilidade, sendo que foi no grupo etário dos 60 ou mais anos onde se observou a maior redução de contacto, cerca de 41%, e no grupo etário dos 18 aos 49 anos cerca de 35%.

O objetivo é ter no máximo 242 doentes em UCI

Joao Gouveia, responsável pela coordenação da Resposta em Medicina Intensiva, recorda que quando a pandemia começou Portugal estava "na cauda da Europa", com um número de camas e de profissionais de medicina intensiva (UCI) muito abaixo do que seria desejável.

Apesar disso, no pico da pandemia, em janeiro, "conseguimos dar resposta a 904 doentes em simultâneo" em UCI (atualmente são 638 internados).

Tudo isto foi feito com muito esforço" dos profissionais, com espaços que foram adaptados para UCI e com a dotação de pessoal de outras áreas para  UCI - o que permitiu aumentar 2,6 vezes a capacidade instalada para a medicina intensiva, chegando até às 1024 camas.

João Gouveia considera que, no futuro é necessário manter 914 camas de UCI - das quais 624 estarão destinadas a outras patologias e 285 ficarão só para doentes covid. O que, como o desejavel é que a taxa de ocupação não seja superior a 80%, significa que o objetivo é ter apenas 242 doentes internados com covid-19 em UCI.

“Como podemos lá chegar? Temos de acreditar que certos pressupostos se vão cumprir: que tenhamos uma incidência corrigida de 240 a 480 casos por 100 mil habitantes, um índice de transmissibilidade (Rt) inferior a 0,7, uma taxa de positividade entre 7 e 8% e cerca de 1500 internamentos”, acrescentou.

Só assim, será possível pensar na possibilidade "recuperar a atividade normal" nas unidades de cuidados intensivos, o que é algo absolutamente necessário.

A situação da medicina intensiva em Portugal é ainda muito frágil, temos uma situação atual que não é real, é enganadora. É necessário completar obras em curso e assegurar recursos humanos com a realização de concursos e a contratação de enfermeiros para a medicina intensiva”, reiterou João Gouveia.

É necessário que todos os doentes que estão em instalações provisórias sejam transferidos para unidades de medicina intensiva em condições e também é necessário que os recursos humanos que vieram reforçar esta área voltem aos seus locais. 

"Temos que arrumar a casa da medicina intensiva", diz este especialista, sublinhando no entanto que, "se por acaso a evolução não for a que desejamos, é necessário retroceder". 

Maria João Caetano