Chama-se Marcelo Matos, tem 45 anos, nasceu no Rio de Janeiro e é um dos médicos que tem estado na linha da frente contra a pandemia de covid-19. Marcelo Matos está em Portugal há três anos e faz parte da unidades de urgência do Hospital Beatriz Angelo e da CUF hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo.

O médico considera que era uma questão de tempo até a pandemia se descontrolar, em Portugal. Marcelo Matos considera que o elevado número de idosos e fumadores transformaram o país num "barril de pólvora" para a covid-19.

Portugal é um barril de pólvora [para a covid-19], um país de idosos e fumantes. Eram pacientes graves, com baixa oxigenação no sangue. E a maioria deles idosos, muitos com doenças associadas”, disse o médico brasileiro.

Num direto no Instagram, o clínico explica o que viu acontecer em Portugal durante as três vagas de covid-19 já registadas. Marcelo Matos descreve a terceira onda pandémica como “um tsunami”.

Eu vivi todas as ondas do novo coronavírus, em Portugal. A primeira [em março de 2020] foi uma marola [pequena onda]. Vimos o que aconteceu no resto da Europa e preparámo-nos bem, não houve sobrecarga. A segunda [em outubro e novembro] foi mais puxada. Mas chegámos ao ápice agora. A terceira onda é um tsunami", explica.

O médico brasileiro afirma que em janeiro assistiu a “situações dantescas”. O clínico revela que em cada quatro pessoas que chegavam às urgências, três tinham sintomas de covid-19, o que levou a um aumento dos tempos de espera para doentes em estado grave, que chegavam a esperar sete horas para receber assistência.

Presenciei situações dantescas. Quando chegava para trabalhar, às duas da manhã, encontrava 60 pessoas à espera de serem atendidas (em dias normais, seriam cinco ou seis). Quando entrávamos, era um desespero, porque só havia gente com pulseira laranja. Tínhamos pacientes com essa classificação esperando 6, 7 horas. Eram tantos laranjas que o sistema colapsou, a gente não tinha nem como atender os amarelos", descreve Marcelo Matos.

Marcelo Matos acrescenta que se sentiu num “cenário de guerra”, onde o oxigénio escasseia e o número de baixas não para de aumentar.

Não haviam mais rampas de oxigénio para usar, eram muitos idosos em macas, mal dava para andar dentro da urgência. Era um cenário de guerra", reitera Marcelo Matos.

Perante o elevado fluxo de doentes, os profissionais de saúde acabaram por se multiplicar em turnos consecutivos. O clínico culmina dizendo que em média trabalhou cerca de 70 horas por semana.

Nuno Mandeiro