Os países europeus que começaram o desconfinamento mais cedo têm menores taxas de crescimento média do número de novos casos de Covid-19, “dados animadores” e que “dão esperança” para Portugal, segundo o Barómetro da Escola Nacional de Saúde Pública.

“Olhando para o contexto internacional, vemos que os países europeus que começaram o levantamento de medidas de restrição primeiro que Portugal, como a Noruega, Áustria e República Checa, estão entre os países que atualmente apresentam as menores taxas de crescimento média do número de novos casos” de Covid-19, refere a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP).

Para os investigadores do Barómetro Covid-19, da ENSP, “estes dados são animadores” e dão “esperança de que o nível de transmissão da Covid-19 poderá manter-se baixo com as medidas de desconfinamento” iniciadas há duas semanas em Portugal.

“A taxa de crescimento média do número de novos casos de maio [em Portugal] é bastante inferior à observada em abril, indicando uma desaceleração do contágio”, sublinha a ENSP, adiantando que a partir dos “próximos dias” poderá começar a avaliar o efeito epidemiológico do desconfinamento em Portugal.

Contudo, sublinham os investigadores, os efeitos das medidas de combate à Covid-19 já estão a ter efeitos na população portuguesa.

Segundo os dados do inquérito do “Opinião Social - Outra crise, a mesma geração”, estes efeitos já “são profundos e estão a agravar as desigualdades já existentes”, afetando principalmente a geração dos 26 aos 45 anos.

“É o grupo etário mais afetado pela suspensão da atividade profissional, com a perda de rendimentos mais significativa, e que mais tem que trabalhar no local no trabalho, expondo-se ao risco de Covid-19”, sublinha o inquérito que envolveu cerca de 180 mil questionários.

 "Geração à rasca" volta a enfrentar "peso de mais uma crise" 

A população apelidada de "geração à rasca" há 10 anos volta a enfrentar o “peso de mais uma crise”, apresentando a maior perda de rendimento e o maior risco de ser infetada, segundo o Barómetro Covid-19 hoje divulgado.

Os dados mostram que “a crise da Covid-19 afeta de forma desigual a população, com particular impacto nos grupos mais jovens. A geração com 26-45 anos em particular está a ser mais afetada pela suspensão da sua atividade e teve a perda de rendimento mais significativa”, salienta a ENSP.

“Há 10 anos, numa altura em que davam início à sua vida profissional, estas pessoas foram fortemente afetadas pela crise que envolveu o resgate da troika, ficando apelidadas inclusivamente de ‘geração à rasca’” e agora “volta a enfrentar o peso de mais uma crise, cujos efeitos continuarão a ser sentidos nos próximos anos”.

Quando questionados sobre a perda de rendimento durante a pandemia, 43% dos inquiridos disseram que o perdeu parcialmente ou totalmente.

São as pessoas com rendimento inferior quem sofreu mais: 25% dos que ganhavam até 650 euros perderam todo o rendimento e cerca de 39% parcialmente.

Segundo o inquérito, 49% das pessoas que auferem até 650 euros suspendeu a atividade profissional, proporção que diminui com o aumento do escalão de rendimento.

Uma em cada três pessoas que suspendeu a sua atividade perdeu todo o rendimento e mais de metade parcialmente.

Os trabalhadores por conta própria foram quem mais suspendeu a atividade (48%, comparativamente a 17% dos que trabalham por conta de outrem) e quem mais perdeu rendimento (37% perdeu-o totalmente, contra 2% dos empregados), “o que sugere que estabilidade no vínculo laboral poderá, em parte, estar associada a menor perda de rendimento”, refere o inquérito.

“Aliada à vulnerabilidade social e económica, este grupo continua a ser o que mais está a sair para ir para o local de trabalho [35%], com contacto com o público ou colegas, estando assim em maior risco de exposição à Covid-19”, sublinha, observando que é neste grupo estão os pais das crianças que brevemente irão regressar à creche, que reabrem na segunda-feira.

Também é esta população que se sente em maior risco de contrair a Covid-19: cerca de um em cada dois perceciona-se em risco elevado relativamente a 13% em teletrabalho.

O estudo aponta que 34% dos inquiridos dizem sentir-se “ansiosos ou agitados todos, ou quase todos, os dias”, sendo os que estão em contacto com o público ou colegas quem se sente ansioso mais frequentemente, comparativamente a 24% dos que estão em teletrabalho.

São também os que perderam todo o rendimento quem se sente do mesmo modo (40% comparativamente a 22% dos que mantiveram o rendimento), sublinha.

“Vemos que, por razões diferentes, mas muitas vezes simultâneas, as pessoas sentem-se agitadas e ansiosas", quer por terem de se expor a maior risco, nomeadamente ao sair de casa para ir para o local de trabalho onde têm de contactar com colegas ou com o público, quer pela preocupação face à deterioração da sua situação económica, refere a ENSP.

Para os investigadores, “são necessárias medidas de apoio social e económico para mitigar os efeitos da crise, particularmente neste grupo, que vê deteriorada a sua situação socioeconómica, mas que representa parte importante da ‘força motora’ para superar a crise nos próximos tempos”.

A ENSP cita dados da Direção-Geral da Saúde referentes ao dia 12 de maio que indicavam que 27.913 pessoas tinham contraído Covid-19 em Portugal e destes 31% eram pessoas com menos de 40 anos.

O Opinião Social é um questionário de periodicidade semanal, do Barómetro Covid-19, que tem como objetivo acompanhar a evolução das perceções, sob o ponto de vista do cidadão: perceção de risco, confiança nas instituições, cumprimento das medidas veiculadas, resposta dos serviços de saúde, impactos no seu quotidiano e na saúde mental, entre outros

 
/ Publicada por ALM