A pandemia de covid-19 está a atrasar e a prejudicar o acesso a diagnóstico e tratamento de doentes oncológicos. Ana Raimundo, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, admitiu esta quarta-feira, na TVI24, que a taxa de mortalidade destes doentes pode mesmo subir 20%.

Existem estudos de base populacional, sobretudo no Reino Unido, que nos demonstram que as taxas de mortalidade podem subir cerca de 20%. Ou seja, por cada 100 casos diagnosticados, vão morrer mais 20 pessoas”, explicou.

Apesar de estar previsto um aumento dos rastreios a todo o território nacional para o cancro da mama, do colo do útero e o colorretal para 2020, a especialista lembrou que, devido à pandemia, não só o objetivo não foi atingido, como o rastreio foi diminuído.

Se um diagnostico não é feito, esse caso de cancro não entra nas listas de espera de cirurgia. Muito provavelmente, as listas de espera não aumentaram tanto porque os diagnósticos não foram feitos. Se as coisas ainda não nos parecem tão mal é porque ainda não tivemos a onda de diagnósticos que nos poderá dar essa resposta”, destacou.

Ana Raimundo explicou que, de acordo com a informação que sabe hoje, 40% dos cancros são prevenidos através de alterações do estilo de vida, como a alimentação saudável e prática de exercício físico.

O principal fator de risco é a idade e esse nós não podemos combater. Mas os rastreios são extraordinariamente importantes, uma vez que se destinam a fazer o diagnóstico de um cancro numa fase assintomática, ou seja, numa fase muito inicial, onde a probabilidade de cura é muito maior”, frisou.

José Dinis da Silva, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, apontou como prioridade a “limpeza” das listas de espera nos hospitais, para preparar os hospitais para “uma grande onda de diagnósticos” oncológicos.

Tem de ser feito um esforço para essa vaga de doentes oncológicos que vão chegar”, reforçou.

O receio da infeção por SARS-CoV-2, que provoca a covid-19, afastou os doentes das unidades de saúde, existindo por isso menos exames e situações identificadas para tratar.

Esse receio ainda não normalizou, mas também “há uma demora maior na realização das endoscopias digestivas altas, porque se têm que ter mais cuidados e mais precauções com os equipamentos de proteção individual por causa da covid-19 e isso faz com que os nossos colegas da gastroenterologia não consigam realizar tantos exames”, afirmou Rui Casaca, o coordenador da Unidade Digestivo Alto do Instituto Português de Lisboa, à Lusa.