Esta quarta-feira, foram identificados dois casos suspeitos da variante originária do Brasil, em Portugal. 

Segundo apurou a TVI, os dois casos foram confirmados na região da Grande Lisboa e já foram comunicados às autoridades de saúde. As duas amostras foram detetadas através de testes de diagnóstico realizados pela Unilabs.

João Paulo Gomes, diretor do departamento de infecciologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, confirma esta "suspeita com bastante robustez", mas alerta que são necessários mais dados para se ter a certeza que se trata desta estirpe brasileira.

O especialista acrescenta que a principal preocupação da comunidade científica em torno das novas variantes de SARS-CoV-2 se prendem com a eficácia da vacina e não com uma transmissibilidade ou sintomatologia mais severa.

As preocupações têm-se focado acima de tudo na problemática da vacina. Será que as vacinas vão ser tão eficazes como são para as outras variantes? (...) Há alguma justificação para o mesmo, tendo em conto o que sabemos dessas mutações, mas não justifica o alarmismo, que não é benéfico para ninguém”, explica João Paulo Gomes.

 

Paulo Paixão, presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, concorda que as novas estirpes do coronavírus "para já não são um motivo para alarme”.

Quanto à eficácia das vacinas contra a covid-19, o especialistas lembra que ainda não se sabe qual é a durabilidade da imunidade auferida pelos pacientes e avisa que é muito provável que o fármaco tenha de ser administrado com uma periodicidade anual.

Não temos a certeza, mas é o mais provável (...) Ninguém sabe responder quanto tempo vai durar a imunidade a seguir à vacina. Como toda a gente sabe, o principal defeito das vacinas nos ensaios não tem a ver com a segurança ou eficácia”, refere Paulo Paixão.

 

 

João Paulo Gomes acredita que, apesar das variantes já conhecidas e das que possam vir a surgir, a população vai alcançar a imunidade de grupo contra a covid-19 através da vacinação.

A imunidade de grupo vai acontecer e vai-nos safar deste cenário catastrófico que estamos a viver”, garante o infecciologista.

No entanto, o especialista alerta para o surgimento de estirpes diferentes e potencialmente mais perigosas após o processo de vacinação mundial.

Tipo de mutações da era pós-vacinal pode ser diferente e tem de ser vigiado com atenção, porque são mutações que estarão a fugir ao nosso sistema imunitário”, alertou João Paulo Gomes.

 

Já o virologista Paulo Paixão esclarece que com a covid-19 a imunidade de grupo nunca será semelhante ao que aconteceu em vírus como o sarampo ou a rubéola.

Devemos olhar para a imunidade de grupo de uma forma um pouco diferente do que temos feito. Quando olhamos para o sarampo ou rubéola, quando há uma parte da população já vacinada, o vírus deixa de circular. Não é o que vai acontecer aqui [com a covid-19]. É uma imunidade de grupo que nos vai proteger da doença, mas o vírus vai continuar a circular. (...) A ideia da vacinação anual é a que tem mais sentido. (...) Mesmo que a imunidade vá decaindo com o tempo, nunca vai desaparecer totalmente. Provavelmente não vamos ter de vacinar toda a gente, mas para já não sabemos”, explicou o virologista.

 

Relativamente ao maior potencial infeccioso das variantes já conhecidas em crianças e jovens, João Paulo Gomes esclarece que é apenas uma ilusão. O especialista refere que recentemente tem havido um aumento de contágios entre as faixas etárias mais baixas, apenas por que o número de casos, em geral, é agora muito superior ao que se registou nas vagas anteriores.

Há mais crianças a ser infetadas porque há muito mais pessoas a serem infetadas”, desmistifica João Paulo Gomes.

 

Nuno Mandeiro