Portugal continua a bater recordes diários de novos casos de infeções de covid-19, ameaçando a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. Tomás Lamas, médico especialista em Cuidados Intensivos, considerou, esta segunda-feira, que o Serviço Nacional de Saúde se encontra em situação de pré-ruptura.

O médico intensivista explicou quais os critérios que levam um doente covid aos cuidados intensivos, a partir do momento em que dá entrada num hospital. Tomás Lamas esclareceu que, o primeiro passo, é a avaliação do doente para perceber se existe “recuperabilidade” por parte do doente.

Se uma pneumonia leva a que um doente seja ventilado, a nossa expectativa é de que esse indivíduo volte à sua vida normal. É óbvio que nem sempre conseguimos vencer esse combate, onde muitas vezes perdemos vidas” ,contou.

Portugal tem disponíveis 500 camas e cerca de 1200 ventiladores, no entanto, “ninguém sabe responder” exatamente quantos profissionais de saúde existem para operar estes recursos.

Eu próprio não sei dizer. Sei, no entanto, que não vale a pena ter ventiladores se não tivermos pessoas que os saibam operar”, salientou.

Tomás Lamas revelou ainda que, de acordo com a sua experiência, o Serviço Nacional de Saúde já se encontra em situação de “pré-ruptura”. O médico intensivista lembrou que, já antes da pandemia, o SNS trabalhava “no limite” das possibilidades do país.

Temos as unidades cheias de doentes com covid-19 e não estou a ver as unidades com doentes que não sejam covid. Onde estão esses doentes”, questionou.

Miguel Sousa Tavares questionou Tomás Lamas sobre se, a acontecer, a rutura viria por fruto da falta de mão-de-obra e não pela falta de ventiladores. O médico lembrou que, se no início havia falta de ventiladores, as fábricas acabaram por conseguir dar resposta a essa lacuna. Porém, é “muito mais difícil” formar um enfermeiro ou um médico intensivista. Ainda assim, acredita que tal poderia ter sido feito.

Formar pessoas capazes de operar as máquinas demora tempo. Mas nós poderíamos ter comprado esse tempo”, explicou.

A organização foi um dos fatores destacados pelo especialista para explicar o insucesso da resposta à pandemia de covid-19, uma vez que os meses mais “calmos” de verão deveriam ter sido utilizado para planear e preparar um inverno que se antecipava difícil.

Somos um país com défice de cuidados intensivos. Não estamos a falar da Alemanha que tem uma das maiores capacidades de cuidados intensivos do mundo. Portanto, temos aqui um equilíbrio difícil de manter no inverno”, apontou.

No mês de março, Tomás Lamas tornou-se conhecido por ter lançado o apelo para que se fechasse o país. Agora, vários meses depois, a sua abordagem mudou e insiste numa resposta “cirúrgica” e que se feche localmente, em zonas em que os casos sejam excessivamente elevados. 

João Guerreiro Rodrigues / JGR