Paulo Lalanda de Castro e Luís Cunha Ribeiro, respetivamente ex-patrão da gigante farmacêutica Octapharma e o antigo presidente do INEM e da Administração Regional de Saúde de Lisboa, já estão formalmente acusados de crimes como corrupção ativa e passiva para ato ilícito, branqueamento de capitais e fraude fiscal. A TVI sabe que estes e outros arguidos do processo que ficou conhecido por “máfia do sangue” já estão a ser notificados da acusação.  

Dois apartamentos e um carro de luxo, dinheiro e viagens pelo mundo em variados destinos exóticos. Tudo isto, ao longo de vários anos, terá recebido da Octapharma Luís Cunha Ribeiro, médico e homem forte da Saúde que chegou a presidente do INEM e da ARS de Lisboa e Vale do Tejo. Em causa está o milionário negócio do sangue, denunciado numa investigação da TVI que deu origem ao processo-crime, em que a Octapharma, pela mão de Paulo Lalanda de Castro e através de um gigantesco esquema de corrupção, conseguiu ganhar uma posição de monopólio no mercado do plasma humano inativado e no fornecimento de derivados do sangue aos hospitais públicos.

 

 

Tudo começou em 2000, quando a empresa venceu o primeiro concurso público. Cunha Ribeiro, em representação do hospital de São João, no Porto, integrava o júri de 14 pessoas e, segundo a acusação, influenciou aquela decisão em favor da Octapharma. Desde então, a gigante suíça que em Portugal era liderada por Lalanda de Castro, nunca mais perdeu o monopólio nesta ligação ao Estado, o que lhe terá rendido mais de 100 milhões de euros: o plasma humano inativado pode ser administrado diretamente aos doentes, ou fracionado e usado para criar medicamentos. As pessoas que precisam de plasma sanguíneo sofrem de hemofilia, de cancros, estão infetadas com o vírus do VIH ou tentam curar queimaduras graves.

Três anos depois do primeiro concurso ganho por Lalanda de Castro, Cunha Ribeiro comprou, no Porto, um duplex de luxo ao patrão da Octapharma, que, segundo a acusação, não terá sido mais do que um negócio simulado. E, em Lisboa, um ano mais tarde, o patrão da Saúde arrendou a uma sociedade de Lalanda um apartamento no edifício Heron Castilho, mas a investigação feita pela Polícia Judiciária apurou que também esta casa lhe terá sido oferecida em forma de suborno. Lalanda e Cunha Ribeiro chegaram a estar presos em finais de 2016, quando avançou a operação ‘O Negativo’, da PJ, mas foram agora notificados da acusação em liberdade, num processo que conta com vários outros arguidos, nomeadamente por ligações à manipulação dos concursos públicos do esquema que ficou conhecido como “máfia do sangue".