Industriais do setor dos mármores em Borba, em Évora, consideraram esta terça-feira que a “tragédia” de segunda-feira, com o deslizamento de terras para uma pedreira, com vítimas mortais, poderia ter “sido evitada” porque “os problemas” da estrada estavam identificados.

Luís Sotto Mayor, administrador da Marmetal, empresa daquela zona que se dedica à exploração de mármore, sublinhou à TVI que que “há muito tempo” que “os problemas da estrada” estavam identificados e que já tinha pedido que fosse desativada.

Isto era uma situação previsível, conhecendo o tipo de estrada e vendo a situação, era uma situação que nos causava aqui algum embaraço", afirmou.

Luís Sotto Mayor recordou que, há quatro anos, a então Direção Regional de Economia promoveu uma reunião de trabalho com os empresários e com a câmara “no sentido de cortar esta estrada, numa parte que era perigosa”, visto que servia, não apenas para acesso às pedreiras, mas para a circulação rodoviária dos habitantes em geral.

Em declarações à Lusa sobre o mesmo tema, Luís Sotto Mayor explicou que os técnicos do Ministério da Economia, ligados à área de Geologia, alertaram que “o problema” era que a estrada poderia “cair de um momento para o outro e não dava segurança”.

E nós anuímos porque temos as pedreiras aqui, somos empresas responsáveis, gostamos de trabalhar em segurança e aquilo também era uma insegurança para nós, além de nos limitar” quanto a “trabalharmos mais junto à estrada”, disse.

Luís Sotto Mayor acrescentou que, na altura, não chegou a “haver consenso” entre os empresários para o corte da estrada e “não saiu nada” de concreto da reunião, na qual participaram cerca de 10 industriais: “Alguns colegas, chamaram-nos malucos” e disseram que “a gente estava a levantar um problema que não existia”.

Luís Sotto Mayor explicou ainda que, nessa altura, os empresários efetuaram um estudo, que poderia ter servido de “base de trabalho” e que apresentaram ao município, identificando o problema” e, no caso de corte daquela estrada, “como é que cada empresa” na zona poderia “ter acesso a Borba e a Vila Viçosa” através de “caminhos alternativos”.

Ficou tudo em ‘águas de bacalhau’”, lamentou, argumentando que quem circulava na estrada “não percebia”, devido às sebes que a ladeiam, mas o que ali se encontrava, com pedreiras de um lado e de outro, “era uma ponte estreitinha, um talude, de seis metros” de largura por pouco mais de 100 de comprimento.

Luís Sottomayor argumentou que, na altura, “foi dito” ao autarca de Borba que, “se houvesse algum azar, a responsabilidade” seria “da câmara”.

Contactado pela agência Lusa, outro industrial do setor com pedreiras de extração de mármore naquela zona, José Batanete, também defendeu que o que sucedeu, poderia ter sido “evitado porque, pelo menos há quatro anos, que nós, empresários, propomos à câmara” o corte daquele troço de estrada, a antiga estrada 255, que liga Borba a Vila Viçosa.

De acordo com o industrial, que possuía há quatro anos uma pedreira de extração de mármore junto à estrada onde aconteceu o deslizamento de terras, entretanto vendida, os empresários até apresentaram ao município “soluções” alternativas para a circulação rodoviária “para que aquilo [o colapso da estrada provocando vítimas] não pudesse ou não devesse acontecer”.

“Entretanto, como costuma ser usual neste país, as coisas, pelos vistos, caíram todas em ‘saco roto’, até à tragédia que se verificou ontem [na segunda-feira]”, lamentou José Batanete.

“As responsabilidades não sei quem as tem”, disse ainda José Batanete, afirmando-se “revoltado” com o que aconteceu.