Ao longo de quase quatro anos, o ex-presidente da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC) respondeu com silêncio às acusações de que foi alvo a entidade a que presidia, no que toca ao combate ao incêndio de Pedrógão Grande. O silêncio foi agora quebrado porque a investigação judicial está concluída.

No dia 24 deste mês, por aquilo que julgo saber, vai ser o início do julgamento e, portanto, é o momento de o país conhecer a verdade do que se passou”, disse Joaquim Leitão à TVI.

E desde logo destaca a falta de meios para fazer face a um incêndio de dimensões gigantescas. E não foi por falta de aviso: logo no início do ano, a Proteção Civil alertou a tutela para a necessidade de reforço de aviões, helicópteros e operacionais.

Sabíamos que era um ano atípico, sabíamos que era um ano diferente e por isso fez-se todo um planeamento de meios adicionais que, infelizmente, não foi possível obtê-los, mas que – e para bem do país – em 2018 já foi possível vê-los no terreno", explicou.

Em entrevista exclusiva à TVI, o ex-responsável constata que esses mesmos meios surgiram após o incêndio e refuta falhas graves no combate ao fogo que se propagou por vários concelhos. Na sua perspetiva, só o empenho dos operacionais de socorro evitou consequências ainda maiores.

Se não fosse de facto um empenhamento de toda a estrutura de socorro – não só da Autoridade Nacional de Proteção Civil na altura – mas como de todos os comandantes e corpos de bombeiros e todas as mulheres e homens que trabalharam arduamente naquele teatro de operações, se calhar as consequências do que aconteceu seriam piores”.

Na análise do antigo presidente da ANPC faz do incêndio, a falta de meios, as condições climatéricas muito adversas e a falta de prevenção foram as grandes causadoras da rápida propagação do incêndio.

O socorro só tem de atuar quando a prevenção falha e, portanto, o socorro não pode ser culpabilizado pela incompetência da prevenção e leia-se até que as grandes medidas do Governo – e muito bem – que foram desenvolvidas a partir de 2017 foram precisamente apostar 100% na prevenção”, apontou Joaquim Leitão.

O ex-presidente da ANPC é também ele um homem marcado pelo que aconteceu em junho de 2017. Não esquece os momentos difíceis que viveu quando a informação da existência de vítimas mortais se sucedia nas comunicações para o comando.

Foi angustiante. Sabermos ao minuto das vítimas que iam surgindo. Nós estivemos sempre em cima do que se estava a passar no terreno. Foi terrível nós precisarmos de mais meios, precisarmos de mais condições e termos de combater com aquilo que tínhamos. Posso garantir aos familiares das vítimas que com elas está o sofrimento de todas e todos que estiveram nesse incêndio”, concluiu.

Recorde-se que o incêndio de Pedrógão Grande vitimou 64 pessoas. O início do julgamento está marcado para segunda-feira.