A Polícia Judiciária de Lisboa concluiu que existem fortes indícios de que o grande mestre do Yoga em Portugal, Jorge Veiga e Castro, fundador e agora ex-presidente da Confederação Portuguesa de Yoga, coagiu e abusou sexualmente de pelo menos oito mulheres, tendo mesmo violado uma delas, aproveitando-se das suas funções na instituição, apurou a TVI. Mas o despacho do Ministério Público é de arquivamento, uma vez que as alegadas vítimas não apresentaram queixa dentro do prazo de seis meses após a prática dos crimes, conforme exige a lei. Porque viviam “num espírito de seita”. 

No entanto, foram considerados credíveis todos os testemunhos prestados no âmbito do inquérito, que nasceu em outubro do ano passado na sequência de uma reportagem da RTP e que apontava para denúncias de assédio sexual. A investigação apurou que, em causa, estão crimes mais graves – embora a falta de queixa atempada não permita uma acusação. 

Mas a PJ, no relatório final que a TVI consultou, encontra justificação nos “mandamentos” da confederação do Yoga uma justificação para o prolongado silêncio das vítimas:

O silêncio das vítimas é incutido desde o início na instituição. Há um dever de lealdade para com o mestre e, seja o que for que se passe entre mestre e discípulo, deve permanecer ali. se o oposto suceder, há uma quebra definitiva de confiança desta relação. Tendo em conta o ambiente de endeusamento vivido na confederação portuguesa de yoga, quanto à figura do mestre, ninguém ousou quebrar esse mandamento."

Diz ainda a PJ que todas as mulheres pretendiam entrar no espírito do yoga. Evoluir, aprender e elevar-se espiritualmente. Seguiam cegamente o mestre, sem o questionar ou pôr em causa os seus atos. Em vez disso, culpabilizavam-se por sentirem repulsa pelos comportamentos do mestre, permitindo assim os abusos constantes sem os repelir, negar ou denunciar. 

Em causa, um “espírito de seita”. Segundo as denunciantes, o agressor cultivava e tirava partido da cultura de suprema divindade. Foi ao longo de muitos anos escolhendo jovens discípulas para ir satisfazendo os seus impulsos e interesses sexuais. As vítimas, que dizem no processo querer procedimento criminal e que o caso seja exposto , “para que outras não passem pelo mesmo”, chegaram tarde. Uma das mulheres lamenta que uma vítima só tenha um prazo de 6 meses para denunciar abusos quando só está preparada para falar mais tarde. Mas, pela lei, já nada há a fazer.

Questionado pela TVI, Jorge Veiga e Castro prefere não comentar: "Sobre o Despacho de que falam não posso tecer comentários porque desconheço por completo o seu conteúdo. Nunca fui notificado ou contactado sobre este assunto. Os factos que terão sido participados só poderiam ser considerados provados se sobre eles tivesse recaído uma decisão judicial, coisa que sabemos por vós que não aconteceu. Já que, segundo informação vossa, o processo terá sido arquivado."

Henrique Machado