Um dos dois acusados de burlar 34 pessoas num total de 1.335.970 euros, com a promessa de conseguir créditos a juro baixo, afirmou no tribunal de São João Novo, no Porto, desconhecer o "porquê da acusação".

Estou aqui à espera de ser elucidado. Desconheço o porquê desta acusação", disse um dos dois arguidos, de 42 anos, que começaram hoje a ser julgados na Instância Central Criminal do Porto (DCIAP) pela prática de três crimes de burla qualificada.

Também presente em tribunal, o outro arguido, de 51 anos e natural de Valongo, preferiu não prestar declarações “nesta fase”, remetendo para “mais tarde”, no decorrer do julgamento, fazê-lo.

De acordo com a acusação deduzida pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), entre 2010 e 2013, os dois homens faziam passar a ideia, em anúncios na Internet e em jornais, de que intermediavam, a troco de uma comissão, a concessão de créditos a juro baixo com uma instituição financeira internacional.

Em função dos montantes pedidos e da abertura mostrada por quem procurava os seus serviços, os suspeitos podiam exigir, além da comissão de intermediação, dinheiro para participação no capital de uma sociedade ‘offshore' ou a abertura de conta em bancos estrangeiros, tudo sempre declarado como imprescindível para receberem os créditos pedidos.

Se os interessados não tivessem dinheiro para tudo, podiam entrar com uma parte ou dar garantias com bens imóveis.

Além de "vender certificações falsificadas" através de uma empresa internacional, registada em 2008 por um dos arguidos no estado de Delaware, nos Estados Unidos da América (EUA), os dois homens são também acusados de criar um falso fundo de investimentos 'online'.

Ao coletivo de juízes, o arguido de 42 anos afirmou que foi através de "amigos comuns" que conheceu o alegado representante nacional da empresa norte-americana Next American Group (NAG) e que, numa fase inicial, apenas tratava dos processos de "certificação das empresas" e "apoiava os clientes".

Segundo o arguido, "rapidamente", a empresa "entendeu mudar de rumo" e "abraçar um novo projeto" para internacionalizar os seus clientes.

Questionado pela presidente do coletivo de juízes sobre como "operava" este alegado fundo de investimento, o acusado admitiu "não saber", apesar de ser um "dos investidores" da plataforma ‘online’ Big Vitory, empresa que, segundo o mesmo, tinha um capital social de "10 mil milhões de dólares".

Também presente na sessão de julgamento, a inspetora da Polícia Judiciária (PJ) que tratou da fase inicial do processo, explicou que foram os "autos” de um dos 34 lesados que motivaram as buscas domiciliárias e ao escritório na Avenida Fernão de Magalhães, no Porto, onde alegadamente os dois homens centravam a sua atividade.

De acordo a inspetora, a PJ conseguiu apurar junto das autoridades americanas que "não há registo de atividade da empresa NAG, apenas a sua criação e que, em 2013, a Big Vitory cessou devido à falta de pagamento de impostos, mas também indicava que não tinha tido atividade".

A informação recolhida pela PJ junto da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) indica ainda que "nenhuma das empresas envolvidas tinha poderes para fazer internacionalização ou certificação de empresas".

No que concerne aos lesados, todos admitiram que os dois arguidos davam a cara pela empresa, estavam presentes nas reuniões”, referiu a inspetora.