O aumento do trânsito nas cidades de Lisboa e do Porto já se faz sentir. Nas últimas duas semanas de setembro, o tráfego registado nas regiões de Lisboa e Porto atingiu números pré-pandemia, de acordo com a plataforma de análise de trânsito TomTom Traffic Index consultada pela TVI24.

De acordo com a plataforma, na semana de 27 de setembro a 3 de outubro, o tráfego na cidade de Lisboa superou em 3% o valor médio registado em 2019 no período homólogo. Já na Invicta, que registava já um aumento progressivo do tráfego, encontra-se apenas 3% abaixo da média de 2019.

A aproximação a estes níveis coincide com o final do habitual período de férias de verão, o início do ano letivo e o fim da recomendação do teletrabalho por parte do Governo. 

No final de agosto, o tráfego nas duas cidades chegou a ser menos de metade do registado antes do início da pandemia. Na capital, na semana de 30 de agosto a 5 de setembro, o movimento era 52% inferior à média de 2019. Cenário idêntico na cidade do Porto, onde, na mesma semana, o tráfego registado foi 42% inferior à média de 2019. 

Em 2020, Lisboa tinha registado um decréscimo no congestionamento de 30%, quando comparado com 2019. No Porto, a queda foi ligeiramente menor, com o trânsito a registar uma queda de 23%. 

Mas desde então que o trânsito nas duas maiores cidades do país tem vindo a recuperar significativamente.

Mais de 100 horas extra ao volante

A TomTom Traffic Index contabiliza também quanto tempo extra um condutor passa ao volante apenas por conduzir durante as horas de ponta nas cidades. Na capital, com base nos dados de 2020, por cada 30 minutos a conduzir durante a hora de ponta, um condutor demora mais 13 minutos durante o período da manhã e 15 minutos durante o período mais intenso de trânsito ao final da tarde. Tudo somado, ao final de um ano, são mais de 108 horas extra ao volante, o equivalente a quatro dias e 12 horas. 

Na Invicta, os gastos extra na hora de ponta são ligeiramente superiores. Se durante a manhã um condutor gasta os mesmos 13 minutos extra por cada meia hora que conduz no período de maior intensidade, esse número aumenta para 16 minutos durante o período do final do dia. Feitas as contas, ao fim de um ano, um condutor no Porto perde 110 horas a conduzir na hora de ponta. Ou seja, quatro dias e 14 horas.

Menos passageiros nos transportes

Estes número não são acompanhados pelo aumento da procura dos serviços de transportes públicos.

Contactado pela TVI, o Metro do Porto registou 4.133 milhões de validações, no mês de setembro, ainda muito abaixo dos 6.270 milhões registados no mesmo mês de 2019.

O cenário é idêntico quando olhamos para os números da Metro de Lisboa, que registou mais de 8.4 milhões de passageiros em setembro, longe dos 14.1 milhões de passageiros que frequentam o metro no mesmo período em 2019.

O cenário é idêntico nos autocarros.

A Carris, por exemplo, ainda está 27% abaixo dos números pré-pandemia. Em setembro, a empresa de transportes de Lisboa registou 8.9 milhões de passageiros. Em 2019, em igual período, a Carris transportou 12.2 milhões. Já a STCP, no Porto, passou dos 6.6 milhões de passageiros, em setembro de 2019, para 4.8 milhões, em 2021.

Medo da covid-19

Em declarações à TVI, o professor do Instituto Superior Técnico, especialista em transportes, Fernando Nunes da Silva, apontou para os vários estudos que demonstram que ainda existe um elevado grau de receio para com a covid-19, o que leva a que uma parte considerável das populações da região de Lisboa e Porto evitem querer andar de transportes. 

Este fenómeno era algo que já se esperava. As pessoas tiveram imenso medo de andar em transportes coletivos durante a pandemia. Um inquérito que foi feito o ano passado, em Portugal, logo após o pico da pandemia, revela que 89% das pessoas dizem que é muito arriscado andar de transportes coletivos”, explicou.

A situação “vai perdurar" durante algum tempo, enquanto a “memória da pandemia estiver muito presente” e, por isso, apontou o especialista em urbanismo, é necessária uma reação por parte das autoridades para “voltar a atrair pessoas” para o transporte coletivo, garantindo melhores condições de segurança e uma maior oferta.

Para melhorar a atratividade dos transportes públicos, o professor catedrático destaca duas soluções, uma delas implementada pelo autarca de Paris durante o início da pandemia, que tem como objetivo “achatar os períodos de ponta”, tentando organizar os períodos de abertura de escolas e serviços em horários diferentes. A outra prende-se com o trânsito proveniente do transporte escolar.

Um estudo mostra que 50% das crianças e jovens vão para escola de automóvel com os pais e, por isso, não utilizam os transportes coletivos. (...) Esta sobrecarga pode ser resolvida através de um transporte escolar. O que acontece é que os pais têm algum receio. O transporte escolar poderá dar aqui uma solução bastante interessante, especialmente se isso não representar um custo para as famílias”, observou.

Nunes da Silva destacou, porém, que a tendência é para um agravamento do aumento do trânsito de veículos individuais, enquanto existir a sensação de que a pandemia de covid-19 ainda não acabou.

Foi isso que se verificou na maior parte dos países da Europa Central, onde os estudos sobre mobilidade e transportes foram feitos”, sublinhou.