Uma associação de professores de português em França acusa o Governo deste país de discriminação em relação à língua portuguesa, que vai deixar de ser avaliada nos exames nacionais, temendo que esta situação conduza ao decréscimo de alunos.

A língua portuguesa é ensinada nas escolas em França desde 1973 e, até agora, servia como prova específica de acesso à universidade e conclusão do liceu.

No entanto, uma recente reforma introduzida pelo atual Governo francês fez com que o português deixasse de contar para os exames nacionais - que em França se chama ‘baccalauréat’ ou apenas ‘bac’ -, passando apenas a contar para a avaliação contínua, tendo menor preponderância na nota final dos alunos.

Segundo a Associação para o Desenvolvimento dos Estudos Portugueses, Brasileiros, Africanos e Asiáticos Lusófonos (ADEPBA), trata-se de uma "discriminação", dado que apenas vão passar a contar como provas finais de línguas vivas o inglês, alemão, espanhol e italiano.

É uma discriminação sem razão nenhuma. Porque é que só escolheram quatro línguas para a especialidade e o português não está lá?”, questionou António Oliveira, professor de português no liceu internacional de Noisy-le-Grand e secretário.geral da ADEPBA, em declarações à agência Lusa.

O docente adiantou que “o português acaba só por contar para avaliação contínua e não conta para a especialidade e muitos alunos podem acabar por desistir de aprender a língua".

Com cerca de 35 mil alunos de português no sistema de ensino em França, entre franceses e descendentes de países de língua oficial portuguesa, António Oliveira teme mesmo que a medida venha a afetar também o ensino superior, já que "não tendo bases no liceu", ao chegarem à universidade, muitos alunos optem por nem seguir a língua de Camões.

A ADEPBA começou por enviar uma carta em fevereiro ao ministro francês da Educação, Jean-Michel Blanquer, alertando que o ensino do português estava "posto em causa" devido a esta reforma e que levaria à erradicação das "línguas raras", nomeadamente este idioma.

A associação informou, igualmente, os diferentes embaixadores dos Estados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desta mudança, esperando uma intervenção por parte dos respetivos governos.

Por exemplo, Portugal tem acordos com a França e o Governo [português] tem de insistir para que esta discriminação seja regularizada", insistiu António Oliveira.

Agora, a associação lançou uma petição em língua portuguesa ‘on-line’ denominada "Défendons l'enseignement de la LANGUE PORTUGAISE" (Defendamos o ensino da língua portuguesa) que, em dois dias, já reuniu mais de mil assinaturas.

António Oliveira disse compreender que a reforma acontece por "razões orçamentais" e que ao reduzir o número de provas, o Ministério da Educação consegue poupar verbas, mas "não se compreende por que é que não deixaram todas as línguas, incluindo o português".

Esta reforma do liceu em França arranca em setembro próximo e abrange os alunos que vão entrar para o equivalente português dos 10.º e 11.º anos de escolaridade, tendo impacto nos exames nacionais de 2021.

Integram a CPLP, além de Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Brasil, Guiné Equatorial e Timor-Leste.