O presidente da Câmara de Borba não se demite. Defende que “uma falta de vergonha” fazê-lo, na sequência do deslizamento de terras e colapso da estrada para dentro de duas pedreiras, fez na segunda-feira uma semana.

O acidente deu-se a 19 de novembro, dia trágico para a minha terra, dia trágico para aquelas famílias que perderam os familiares, dia trágico para aquelas pessoas que ainda não recuperaram os corpos, portanto seria uma falta de vergonha da minha parte se eu abandonasse”.

Em declarações aos jornalistas, hoje à tarde, António Anselmo, eleito pelo Movimento Unidos por Borba (MUB), considerou que “seria fácil” colocar o lugar à disposição, numa altura em que decorrem as operações de socorro em duas pedreiras, onde morreram duas pessoas e, pelo menos, três estão dadas como desaparecidas.

“Condições [para manter mandato], claro que tenho", declarou, afiançando que as terá "sempre".

Não vale a pena dizer que quem se demite são os fracos. Eu estou cá e assumo enquanto tiver de assumir a responsabilidade do município. Enquanto eu estiver aqui, assumo, claramente, aquilo que estou a fazer e, portanto, demitir é próprio dos fracos e eu estou cá para lutar sempre pela minha terra”.

O autarca voltou a dizer que desconhecia os riscos de colapso da estrada, lamentando que o alerta da antiga Direção Regional de Economia do Alentejo, em 2014, tenha sido encaminhado para Lisboa.

Se um documento que saiu da antiga Direção Regional de Economia do Alentejo foi para Lisboa, eu pergunto porque é que não veio para Borba. Não sei, não veio para Borba. Se viesse para Borba, como devem calcular, é evidente que tomava uma posição, todas as outras conversas que houve, a seguir, nada decidiram”.

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Por outro lado, António Anselmo defendeu que este não é o momento de “arranjar” culpados, numa fase em que o “mais fácil” é apontar responsabilidades ao autarca por ser “o mais fraco” em todo este processo. “Não vamos tentar agora arranjar culpados. Mais fácil qual é que é? o presidente da câmara, não é? é o mais fraco naturalmente”.

Risco chegou a ser debatido pela Assembleia Municipal de Borba

Os alertas feitos pela DRE à câmara sobre a estrada 255 “ecoaram” na reunião da Assembleia Municipal de Borba que teve lugar a 27 de dezembro de 2014, de acordo com a respetiva ata, disponível na página de Internet do município e consultada pela Lusa.

O presidente do município, questionado pelo deputado Celso Ramalho (PS), admitiu que, “uns meses” antes, tinha sido informado “por uns empresários dos mármores” de que “um estudo” da DRE reportava “que a estrada estava em perigo” e, depois, “toda a vereação” do município reuniu com elementos deste organismo, tendo-lhe sido “explicado o assunto referido”. Apelando a “um pouco de bom senso nestas situações”, o autarca lembrou tratar-se de “um problema” que se arrastava “há 10 anos” e questionou: “Agora é que está em perigo de cair?”.

“A estrada só vai ser derrubada se estiver mesmo em perigo”, disse, na altura, admitindo que, se a câmara tivesse “informações concretas dos técnicos sobre o verdadeiro perigo ali instalado” poderia “limitar o trânsito de pesados” na estrada, mas o assunto teria de “ser estudado com muita cautela” e basear-se “em factos técnicos muito grandes”.

António Anselmo expressou a intenção de, em janeiro de 2015, marcar uma “conferência explicativa sobre a situação” no cineteatro, com a DRE, empresários do setor e outros interessados, mas esta não chegou a ser realizada.

Questionado hoje pelos jornalistas, António Anselmo assumiu que o caso da estrada foi debatido pela Assembleia Municipal de Borba, depois de uma reunião que foi “inconclusiva”.

Acredito que a justiça está a investigar como deve de investigar e, naturalmente, depois da justiça investigar cá estaremos para assumir, se tivermos que assumir ou não a responsabilidade. Eu penso que a culpa não deve morrer sozinha”.

Seria a “primeira pessoa", garantiu, a fechar a estrada, caso tivesse conhecimento dos riscos que a via apresentava. “Nunca acreditei que aquilo viesse a cair”..