O Presidente da República apelou, este sábado, aos médicos recém-formados para que não abandonem o país nem o Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa cerimónia em que centenas de novos médicos fizeram o seu juramento de Hipócrates.

A cerimónia decorreu este sábado à noite em Lisboa, na Aula Magna, um auditório cheio de novos médicos – e de familiares – que, depois de uma primeira tentativa frustrada, vítima da timidez de alguns, acabaram por fazer o juramento de Hipócrates, em simultâneo, seguindo a leitura feita pelo Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa, que presidiu ao evento.

Na intervenção que encerrou a cerimónia, Marcelo Rebelo de Sousa deixou um apelo aos médicos para que não deixem o país.

Andais por onde andais, regressai sempre a Portugal. […] Sois precisos aqui”, disse o PR, num discurso marcado pela boa disposição, que arrancou risos e aplausos ao auditório.

Dirigindo-se aos novos médicos, declarou-se também ele emocionado com o momento, não só por estar no local onde estudou e ensinou – a Universidade de Lisboa – a 20 dias do término da sua atividade académica, mas também pela iniciativa da Ordem dos Médicos, que entregou a Marcelo Rebelo de Sousa a ficha de inscrição do seu pai, Baltasar Rebelo de Sousa, nesta ordem, há 68 anos, quando ele tinha pouco mais de um ano, para de seguida arrancar a primeira gargalhada da plateia.

Não tendo sido possível ser médico, fiquei o mais próximo que era possível: hipocondríaco”, disse o PR, explicando ainda ser daqueles que não encontram doenças a cada passo, mas “dos que teorizam, mas não podem prescrever”, até porque isso seria crime e “um PR não pode dar maus exemplos” aos concidadãos, “enveredando por atividades criminosas”.

Referindo as dificuldades que o SNS atravessou – “que tenha atravessado crises sucessivas tenha sobrevivido, esteja para durar e deva durar” – lembrou outra dificuldade específica – a do exame de acesso à especialidade, o Harrison, que estes diplomados foram os últimos a fazer, como lembrou o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, uma vez que deixa de ser aplicado a partir de 2019.

O Harrison é difícil. Conheço vários colegas de geração que ficaram como ficaram por causa do Harrison”, brincou Marcelo Rebelo de Sousa, seguindo-se novo aplauso.

Aos recém-diplomados, o PR pediu ainda uma “mobilização permanente”, alertando que os meios serão sempre insuficientes para as necessidades, haverá sempre falta de recursos, mas terão sempre a gratidão dos doentes, porque “se há uma realidade constante é a gratidão em relação ao médico”, algo que “nem sempre acontece com outros” profissionais.

“Consolem-se com isso”, pediu Marcelo Rebelo de Sousa, referindo ainda a gratidão devida às famílias, que “criaram condições para os filhos que eles próprios nunca tiveram”, e o reconhecimento devido aos mestres, que podem ter sido “dos mais entusiasmantes aos mais enfadonhos ou execráveis – a vida é assim”, mas “representam uma excelência que é preciso reconhecer”.

O PR dirigiu-se ainda ao bastonário da Ordem dos Médicos, lembrando que se assinalam os 80 anos deste organismo, marcados por “uma dialética” em que ora fizeram “a vida negra” aos ministros da saúde, ora “tiveram a vida feita negra” pelos ministros da saúde, para dizer que esta “não era ainda a ocasião” para condecorar a ordem pelo seu trabalho – hoje era “o tempo” dos novos médicos – “mas será devidamente condecorada”.

Também a ministra da Saúde, Marta Temido, anunciou que a Ordem dos Médicos receberá do Ministério da Saúde no próximo dia Mundial da Saúde, a 07 de abril, “a medalha de ouro de serviços distintos”.

Apelo reforçado por Marta Temido

Dirigindo-se aos médicos na plateia, a ministra referiu-se a responsabilidades conjuntas na defesa do SNS, nomeadamente em desafios como o envelhecimento da população, o equilíbrio entre o potencial das novas tecnologias e o seu preço e o investimento em infraestruturas e equipamentos “que concorrem com outras prioridades setoriais”, assim como “expectativas de desenvolvimento profissional às quais é impossível responder ao ritmo dos desejos”.

“O SNS que vos recebe enfrenta dificuldades e pode fazer melhor. Conhecemos os desafios […] Enfrentar estes desafios é uma responsabilidade da ministra da Saúde, mas na qual só seremos bem-sucedidos se pudermos contar com cada um de vós”, disse Marta Temido, frisando ainda que a formação destes novos profissionais representa um investimento neles, mas também no país, e na melhoria da saúde e do SNS.

Num discurso com alguns recados ao Governo, o bastonário dos médicos, Miguel Guimarães citou Michel Foucault para dizer que a primeira batalha que os médicos enfrentam é política, “contra as más políticas”, considerando ser dever dos médicos denunciá-las.

Considerou ainda a formação a “joia da coroa” do SNS, que leva a que outros países europeus procurem recrutar em Portugal, pedindo soluções de gestão que evitem saídas para o estrangeiro, mas também para o setor privado.

E não deixou de estabelecer um paralelismo com Marcelo Rebelo de Sousa – “Nós, como o PR, também temos que ser pessoas de afetos” – para lembrar os novos profissionais que na sua carreira vão atender muitos doentes que não estão doentes, que os procuram apenas para conversar ou procurar atenção.