O Conselho Nacional de Educação recomendou retirar o exame nacional de Matemática como prova de acesso aos cursos de formação de professores do 1.º e 2.º ciclos, mas a proposta não tem o apoio dos pais nem do Governo.

Na “Recomendação sobre Qualificação e valorização de educadores e professores dos ensinos básico e secundário”, o Conselho Nacional de Educação (CNE) traça um quadro pessimista sobre as atuais condições de trabalho dos professores e a reduzida atratividade da profissão para captar os mais jovens.

No documento, dividido em cinco pontos, que merecem cada um deles recomendações, o CNE aponta, no ponto referente à formação inicial dos docentes, que existem “constrangimentos nas condições de acesso que têm estrangulado ainda mais o ingresso de alunos em cursos de formação de professores”, entre os quais a “obrigatoriedade de uma prova de Matemática do ensino secundário”, o que condiciona a capacidade de atração para os cursos superiores de educação de alunos que tenham origem em áreas de estudo sem essa disciplina.

E ainda que reconhecendo a “necessidade de uma formação sólida em Matemática para quantos iniciam a aprendizagem das crianças desta disciplina”, o CNE defende, no entanto, que os tópicos que se aprofundam no ensino superior para se ser professor são os ensinados até ao 9.º ano de escolaridade, “não havendo assim relação direta entre a realização de um exame de Matemática do ensino secundário e conhecimento matemático necessário para um bom desempenho enquanto professor que também ensina Matemática”.

O CNE recomenda a elaboração de novas regras de ingresso para o primeiro ciclo de estudos do curso de Educação Básica, bem como a previsão, durante a licenciatura, de um tempo complementar ou integrado de formação científica em Matemática ou em outras áreas em que os alunos revelem deficit, de acordo com os seus percursos no ensino secundário”, lê-se na recomendação, que propõe também revogar a deliberação que obriga à realização do exame nacional de Matemática.

O texto do CNE, aprovado em plenário pelos conselheiros, mereceu, no entanto, a apresentação de quatro declarações de voto, duas das quais contrárias a esta proposta de eliminar o exame.

A primeira posição contra apresentada é a de Jorge Ascensão, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), que propõe que se analise a questão da formação inicial de forma “mais abrangente, pela necessidade de se discutir e alterar o paradigma do acesso para todos os cursos, evitando parecer que se desvaloriza o rigor no ingresso na formação para docente do 1º ciclo”.

A vontade ou a necessidade de se atraírem jovens para a docência não pode descuidar a valorização de saberes essenciais. Por outro lado, é preciso garantir que quem assume a responsabilidade de orientar e apoiar as crianças no início das suas vidas académicas o faz com verdadeiro gosto pelo que ensina em todas as áreas”, acrescenta Jorge Ascensão.

Já Inês Duarte, designada pelo Governo para o cargo de conselheira do CNE, entende que esta recomendação em particular “configura uma diminuição da exigência na preparação dos candidatos à licenciatura em Educação Básica”.

Os maus desempenhos em Matemática estão na base da fuga de muitos jovens para cursos científico-humanísticos sem esta disciplina no ensino secundário: aceitá-los como futuros educadores e professores terá repercussões negativas na atitude e nos desempenhos dos seus futuros formandos relativamente à matemática”, acrescenta.