Era uma das principais dúvidas dos leitores do PortugalDiário. Talvez mesmo a principal: afinal, há quantos anos Mário Nogueira não é professor? Nem sempre o desempenho dos sindicalistas é entendido pela sociedade, mas o secretário-geral da Fenprof não tem receio em explicar as suas funções, aproveitando até para fazer uma breve viagem à sua actividade pública.

VEJA AQUI O VÍDEO DA ENTREVISTA

«A constituição diz que nenhum trabalhador, desde que eleito democraticamente, pode ser penalizado na sua vida profissional, porque estaríamos numa sociedade ditatorial e a regressar ao fascismo. Eu, como qualquer trabalhador, não posso ser penalizado na carreira. A não ser que regressássemos ao fascismo e aí admito que já estivesse preso», começou por explicar.

«Sou secretário-geral da Fenprof há ano e meio e assumi funções de direcção, de coordenação e outras no SPRC. Por exigência colocada aos sindicatos, fiquei a tempo inteiro nesta actividade há cerca de 20 anos», frisou, admitindo já ter tido «vontade de regressar à escola», mas essa escolha revelou-se «uma impossibilidade». «Fui convidado por duas vezes a leccionar no Ensino Superior, mas rejeitei porque gosto de ser sério e entregar-me completamente. Por isso, tenho de estar disponível das 9h da manhã à meia-noite para os professores», referiu.

«Vivo em Coimbra, efectivo numa escola a cinco minutos da minha casa, para a qual podia ir a pé. Assumi esta responsabilidade e com todas as consequências. Podia ter feito outras opções, estar num partido de poder, ser deputado e tinha grandes vantagens com isso. Assim, tenho um ordenado como se estivesse na escola e o afastamento consequente dos amigos e da família, porque tenho de estar em Lisboa. Faço isso por opção, não sou obrigado.»

Mocidade Portuguesa não

O secretário-geral da Fenprof não renega as suas raízes. «Em jovem, no liceu, envolvi-me nas associações de estudantes. Habituei-me a lidar com a democracia em casa, porque o meu pai foi um homem que lutou contra o fascismo. Fui escuteiro porque era alternativa à Mocidade Portuguesa e essas coisas fascistas não entravam lá em casa», conta, com alguma graça.

A carreira de professor surgiu com naturalidade: «Terminei o sétimo ano de liceu em 1975 e na altura queria ser professor de matemática. Nesse ano foi criado o serviço cívico e fui colocado durante um ano no serviço de limpezas do hospital de Tomar. Na altura, muitos procurámos uma saída, porque tínhamos 16 anos, era a revolução e queríamos ir para Coimbra. Na altura, as escolas do magistério foram reestruturadas para terem três anos de curso e não exigiam o serviço cívico. Éramos mil e tal candidatos para 90 vagas, porque todos queriam evitar o serviço cívico. Terminei o curso, estive 3 meses desempregado e comecei a trabalhar em Janeiro de 79».

Mário Nogueira ainda esteve matriculado em Economia, na Faculdade, mas como foi colocado em vários locais do país como professor do 1º Ciclo, acabou por abandonar. Foi já depois de ter concluído a licenciatura em Ensino Especial, na Escola Superior de Educação de Coimbra, que enveredou pelo sindicalismo.

«Estou aqui democraticamente eleito, com uma responsabilidade que assumo por inteiro e com um orgulho muito grande por sentir que os professores se revêem na actividade que exercemos aqui. Isso faz-me sentir muito bem e motivado pelo menos até 2010, que é quando termina o meu mandato», contou, explicando que tem ainda muita energia para continuar a lutar:

«Sou um dos rostos do combate a este Governo, porque foi o pior no plano da relação democrática e negocial que existiu com os professores e que mais contribui para a degradação da escola pública e da sua qualidade, apesar de estudos que encomendou e pagou e que ontem divulgou poderem fazer supor outra coisa que não é verdadeira».
Filipe Caetano