O espaço de investigação coordenado por Alexandra Borges desta semana abordou o negócio da hemodiálise em Portugal, que é quase todo gerido por privados. Após a exibição da reportagem, cinco convidados debateram o tema na TVI24.

Eva Xavier começou a trabalhar nos anos 60 e falou, sobretudo, da situação no Norte do país, nomeadamente no Porto. A clínica explicou que o programa de hemodiálise começou por estar centrado no Estado, e demorou até chegar aos privados. O regresso de alguns doentes estrangeiros aos serviços do Porto acabou por saturar os serviços das unidades da região.

O regresso de todos os doentes que estavam no estrangeiro rapidamente saturou os serviços de nefrologia no Porto e, portanto, começamos a acumular doente. Eu mandei doentes para Espanha e até para França. Eu vivia um traumatismo psíquico", contou Eva Xavier.

Por sua vez, o nefrologista Cândido Ferreira, que tinha clínicas e teve de vender algumas, tendo mesmo chegado a fazer parte do maior grupo de diálises em Portugal, admitiu que as regras eram desiguais para as diferentes empresas. Acabou por se render e vender as empresas às multinacionais.

Tive grandes obstáculos para conseguir a convenção. (...) Posteriormente, a Medical Care entrou em Portugal e criou-se, a pouco e pouco, um oligopólio", afirma, falando em concreto na chegada da Medical Care.

O empresário Fernando Jorge Xavier esteve presente no debate sobre o negócio da hemodiálise, inserido no espaço de investigação Alexandra Borges. O convidado, que é dono de algumas clínicas da especialidade, explicou os contornos deste tipo de serviços.

Há concorrência desleal. Os pequenos sofrem com contrapartidas para as multinacionais”, afirmou o empresário Fernando Jorge Xavier, que lamentou a dificuldade das empresas em conseguir licenciamento para operar.

Por sua vez, Fernando Jorge Cunha, representante da Associação de Doentes Renais, lamentou que o transporte não seja feito de forma adequada para os doentes.

Fiz hemodiálise cinco anos e sei o que custa fazer uma viagem depois de fazer hemodiálise, por muito curta que seja”.

Um testemunho corroborado pelo advogado Miguel Matias, que lembrou o caso do pai para exemplificar a necessidade da proximidade quando se fala deste tipo de tratamentos.

Não sou médico, mas sou filho. O meu pai, que infelizmente já faleceu, foi hemodialisado bastante tempo. E eu sei bem quantas vezes o táxi voltava para trás, para a Cruz Vermelha, porque o meu pai desmaiava porque não aguentava as consequências imediatas".

Para a jornalista responsável pela reportagem, no meio desta burocracia quem sofre são os doentes, tendo deixado algumas sugestões para melhorar a gestão do negócio da hemodiálise.

Acho que o Estado tem de agir. Alguém tem de parar e olhar para o que se está a passar. Quem está a sofrer com isto tudo são os doentes. O Governo podia aproveitar esta renegociação para reduzir custos de verdade".

/ AM