O genro do antigo Presidente da República Cavaco Silva não tinha dinheiro, mas queria comprar a maior sala de espetáculos do país. O presidente da maior empresa portuguesa não queria patrocinar o negócio, mas o maior banqueiro português convenceu-o a dar 11 milhões de euros. Luís Montez ganhou o concurso para a compra do Pavilhão Atlântico. A decisão foi do Governo PSD/CDS. O caso está a ser investigado na Justiça. Há suspeitas de favorecimento, num negócio muito secreto e pouco transparente, até para quem o acompanhou na presidência do Conselho de Ministros.

Em março de 2012, Portugal enfrentava a troika e os bancos tinham fechado a torneira do crédito. O Governo PSD/CDS decide encerrar a empresa pública Parque Expo e vender a maior sala de espetáculos do país. O objetivo era conseguir o maior encaixe financeiro possível.

Três gigantes estão na corrida: o consórcio de Luís Montez, o empresário das rádios e do festival Meo Sudoeste, o grupo de Álvaro Covões, fundador do NOS Alive, ex-sócio do genro de Cavaco na produtora “Música no Coração”, e o gigante do desporto e entretenimento AEG, com arenas em Los Angeles, Londres e Berlim.

O diretor geral, o diretor de operações e o diretor financeiro do Pavilhão Atlântico estavam na corrida associados a Luís Montez. Até aqui tudo bem, o problema é que se mantiveram em funções. Pior, chegaram a receber os concorrentes numa reunião de trabalho sem revelar que também estavam na corrida.

Um email que a Parque Expo enviou ao consórcio de Álvaro Covões prova que a equipa de gestão da arena reunia com a concorrência, apesar de também ser candidata. Num concurso em que ninguém podia anunciar publicamente que era candidato, a equipa de Montez ficou em vantagem: passou a conhecer a concorrência.

Assunção Cristas era ministra do Ambiente e Ordenamento do Território e foi ela quem escolheu os três candidatos admitidos a concurso.

Luís Montez era o único proprietário da ”Música no Coração”, a promotora de espetáculo estava em falência técnica, mas o genro de Cavaco Silva deu a volta ao problema: avançou como empresário em nome individual.

Os candidatos tinham de revelar músculo financeiro, mas o genro de Cavaco não tinha dinheiro. E é aqui que entra Ricardo Salgado. Em plena crise, o consórcio do genro de Cavaco celebrou um contrato de leasing com o BES: o fundo de capital de risco emprestou 19 milhões de euros e ainda entrou como acionista da Arena Atlântico, a sociedade que gere o pavilhão.  

Além disso, Ricardo Salgado convenceu Zeinal Bava a pagar 11 milhões de euros para que o Pavilhão Atlântico passasse a chamar-se MEO Arena. As escutas telefónicas registadas no Processo Marquês vieram revelar os detalhes da operação.

No limite do prazo para entregar as propostas de compra do pavilhão, o diretor executivo do BESI, assessor de Luís Montez, desdobra-se em telefonemas e SMS para Ricardo Salgado.

Horas antes, o então “dono disto tudo” já pedira mais detalhes sobre o negócio. Pelas 20:00, o banqueiro e o presidente executivo da PT têm a conversa decisiva.

No final, o contrato com a PT valeu 11 milhões. Um telefonema do “ex-dono disto tudo” matou o compromisso que a PT assumira com o consórcio concorrente

Podia ter aberto um concurso público, mas o Governo optou pela negociação particular e as regras causaram estranheza. Os candidatos nem podiam anunciar que estavam na corrida.

Mais, ao contrário do que ditam as boas práticas, ao longo de todo o concurso as propostas em carta fechada nunca eram abertas à frente dos concorrentes.

Na reta final do concurso, e com o apoio da PT garantido, Ricardo Salgado liga ao assessor financeiro de Luís Montez para dar a boa nova: o consórcio de Luís Montez saiu vencedor.

Na reunião do Conselho de Ministros ficou a saber-se que o genro de Cavaco ofereceu 21 milhões e duzentos mil euros, Álvaro Covões 19 milhões, o grupo AEG ficou-se pelos 16 milhões e meio.

A escritura de 2013 mostra que foi o BES a comprar o Altice Arena que agora pertence ao Novo Banco.  

As escutas do processo Face Oculta já tinham mostrado como o Governo de Sócrates tentou usar o genro de Cavaco para calar o Presidente da República. A PT comprava a TVI e o preço da paz passaria por entregar as rádios ao genro de Cavaco, mas o negócio não avançou.

A Autoridade da Concorrência só viabilizou o negócio depois de impor vários remédios para garantir o acesso doutros promotores como Álvaro Covões à maior sala de espetáculos do país.

Luís Montez só aceitou responder por escrito. O genro de Cavaco Silva diz que nunca deu instruções direta ou indiretamente a Ricardo Salgado. Acrescenta que a parceria com a PT tem sido um sucesso tanto que o novo acionista Altice a decidiu manter.

Já a equipa de gestão que integrava o consórcio de Montez assume que reuniu com os concorrentes sem lhes revelar que também estava na corrida. Acrescenta que apenas se manteve em funções durante o concurso porque a administração da Parque Expo assim o determinou.

O presidente da Parque Expo John Antunes não quis falar e Ricardo Salgado não respondeu às questões da TVI.

O Pavilhão da Utopia, inaugurado para a Expo 98, custou ao estado 60 milhões de euros.

Foi vendido 15 anos depois por um terço desse valor. O BES emprestou 19 milhões e ainda garantiu um patrocínio milionário da PT ao genro de Cavaco.

A Autoridade da Concorrência diz que as receitas anuais dos patrocínios cobrem largamente as obrigações financeiras.

O pavilhão paga-se a si próprio, um verdadeiro negócio da China, que a Procuradoria-geral da República confirma estar a ser investigado, ainda sem arguidos.