Vários moradores do Campo Grande, em Lisboa, querem expulsar o negócio do sexo de um prédio habitacional. A dona da casa de alterne garante que não incomodam ninguém porque não fazem nada "no vão das escadas" e lançou uma petição para que se legalize a prostituição em Portugal.

“A própria polícia tem conhecimento destas casas e vêm cá. Os juízes também. Políticos, todos vêm. Todos vêm cá, todos usufruem, mas no fundo, é como se nós não existíssemos. Preferem assim”, afirma Ana Loureiro, acompanhante e proprietária do negócio.

Ana, mais conhecida por “mummy”, tem 36 anos e começou a prostituir-se depois de ter ficado desempregada com dois filhos menores e a mãe acamada a seu cargo.

Eu dava de comer aos meus filhos e bebia água. Eu cheguei a dar pão batido com água aos meus filhos para fazer de papa”, recordou. “Não tinha dinheiro e tinha uma mãe acamada”.

Quando todas as portas se fecharam, “mummy” percebeu como podia pagar as despesas. Acabou por abrir um espaço no Campo Grande, onde o negócio do sexo lhe dá para pagar uma renda de 2125 euros.

Mas os moradores não a querem lá. Falam em insegurança, alegam que a prostituição é um atentado à dignidade humana e impuseram uma providência cautelar.

Quando olho para a providência cautelar fico chocada. É um atentado contra a dignidade humana, mas se pagarmos 1500 euros de multa, já não há atentado contra a dignidade humana”, desabafa Ana Loureiro. “Para onde vai a dignidade humana e a moral? Não consigo compreender”.

As acompanhantes falam em hipocrisia social e, por isso, lançaram uma petição para que a prostituição seja legal, em Portugal, bem como o lenocínio, desde que não seja por coação.

Eu não acredito que os restantes vizinhos não tenham atividade sexual com os seus respetivos companheiros. Devem ter. Então também estão a atentar contra a moral e contra os bons costumes”, afirmou. “Como é que se coloca uma providência cautelar por uma pessoa fazer usufruto do próprio corpo?”

Ana aponta ainda o dedo à classe política.

A própria polícia tem conhecimento destas casas, os juízes também, e vêm cá. Todos vêm cá. Políticos, todos vêm, todos usufruem, mas, no fundo, é como se nós não existíssemos. Preferem assim”, revelou. “Eu sei que se a nossa posição for levada à Assembleia, dificilmente vai passar, porque a maior parte é cliente”.

“Beatriz Novais”, tem 34 anos, e também ela tem um passado idêntico a tantas outras mulheres que se viram obrigadas a recorrer à venda do seu próprio corpo como forma de sustento.

Começou a prostituir-se aos 20 anos. A avó tinha poucas posses para a criar. A falta de dinheiro e a incapacidade em arranjar um trabalho, empurraram-na para a prostituição, onde um dos seus primeiros clientes “foi um padre”.

Por favor aprovem as leis que estão na petição. Todos os pontos que lá estão são importantes”, apelou a acompanhante.

Contactada pela TVI, a advogada que representa os moradores recusou comentar a legalização da prostituição, mas explicou que um dos fundamentos da providência cautelar é que o apartamento só tem licença para habitação.

Garantiu ainda que os moradores estão “sujeitos à constante falta de privacidade e segurança”, principalmente as crianças, lembrando que a casa onde se encontra o negócio foi assaltada no final do ano de 2019.

Filipa Calado