O jornalista, fundador do Público e primeiro diretor deste jornal morreu, na madrugada desta terça-feira, em Lisboa. A notícia é avançada pelo próprio Público

Natural do Funchal, onde nasceu em 8 de novembro de 1945, Vicente Jorge Silva era um apaixonado por cinema, mas acabou por fazer carreira no jornalismo, tendo ainda sido deputado, uma experiência da qual não gostou.

Vicente Jorge Silva marcou uma geração no jornalismo em Portugal, sendo dele a polémica expressão "geração rasca", num editorial que assinou aquando das manifestações estudantis contra a então ministra da Educação do Governo de Aníbal Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite.

Começou por escrever artigos sobre filmes na página “Foco”, do Jornal da Madeira, tendo assumido mais tarde a direção do Comércio do Funchal, sido chefe de redação e diretor-adjunto do jornal Expresso e cofundador e primeiro diretor do jornal Público, iniciado em 1990.

Como realizador de cinema foi autor de “O Limite e as Horas” (1961), “O Discurso do Poder” (1976), “Vicente Fotógrafo” (1978), “Bicicleta - Ou o Tempo Que a Terra Esqueceu” (1979) e “A Ilha de Colombo (1997)”. Porto Santo (1997), seu último trabalho no cinema, foi exibido no Festival Internacional de Genebra.

O cinema era um grande sonho", mas era mais difícil "ser cineasta do que jornalista, afirmava na entrevista "Uma vida, uma história" à RTP Madeira, em 18 de março de 2016, acrescentando que quando tinha más notas os seus pais não o deixavam ir ao cinema.

Na entrevista à RTP Madeira, admitiu ter sido sempre "um bocadinho rebelde" desde o início da "idade da razão" e relatou que começou a ter problemas com a Polícia Política no Estado Novo, com cerca de 14 anos.

Com 18 anos foi para Paris, onde trabalhou numa fábrica de cola, uma experiência que classificou de "importante" por ser "formativa", seguindo depois para Inglaterra, onde lavou pratos num hotel. Já em Londres, tentou inscrever-se numa escola de cinema, mas o consulado português não lhe prolongou o visto, o que ditou o seu regresso à Madeira.

Contava que o facto de ser "muito surdo" o tinha livrado da guerra colonial, tendo sido dispensado "de todo o serviço militar".

Entretanto, em 1966, integrou a direção do Comércio do Funchal, jornal de oposição ao regime de Salazar e, em agosto de 1974, rumou a Lisboa para ingressar no semanário Expresso, onde chegou a diretor-adjunto.

No Expresso foi responsável pelo lançamento da Revista, uma inovação na imprensa da época e que deu grande prestígio ao semanário, que se tornou uma referência. Quando saiu para fundar o Público, não sem antes ter proposto a Pinto Balsemão a criação de um diário, parte da redação seguiu-o, provocando um abalo significativo no Expresso.

Em 1990, fundou o jornal Público, tendo sido o seu primeiro diretor. É dele a expressão polémica "geração rasca", num editorial sobre as manifestações de estudantes contra a ministra da Edução da altura, Manuela Ferreira Leite, do governo de Aníbal Cavaco Silva.

O Belmiro de Azevedo [empresário que liderou o grupo Sonae, dono do Público, entretanto falecido] não era especialista no negócio jornalístico, e eu também não era. Nós tínhamos era um projeto de um jornal [Público] que gostávamos de fazer e depois vimos quem é que em Portugal poderia financiar um projeto destes. Claro que seria muito mais prático ser o Pinto Balsemão, se ele estivesse para aí virado. Mas não estava. Eu achava que o Expresso era sempre a mesma coisa e queria fazer uma coisa que saísse todos os dias e acompanhasse a atualidade de uma forma muito mais viva", contou, em setembro do ano passado, em entrevista ao Observador.

Em 1996, sai do Público, com 51 anos, e passa a dirigir a revista Invista, que durou pouco tempo.

De facto, desde o Público nunca mais tive uma coisa que me enchesse as medidas", admitiu ao Observador, há exatamente um ano.

Vicente Jorge Silva foi militante e deputado do PS - eleito pelo círculo eleitoral de Lisboa -, entre 2002 e 2004.

Não gostou da experiência como deputado porque para um jornalista "não é possível mudar de pele e alma", afirmou, numa entrevista há quatros anos, ressalvando que este comentário não se traduzia numa crítica à essência da vida política.

Desde que me conheço [...] sempre me considerei uma pessoa de esquerda democrática", afirmava, um social-democrata no sentido sueco, apontado Olof Palme como seu herói.

Na sua carreira destacam-se dois prémios: Cupertino Miranda e Procópio e a rejeição de uma condecoração.

Só não gosto de condecorações", afirmou há quatro anos.

Apesar de não ter "um feitio fácil", Vicente Jorge Silva admitia que de "alma e coração" era um romântico.

O jornalista foi colunista de vários jornais, entre os quais o Diário de Notícias e o Público, onde regressou nos últimos anos, ocupando a coluna que tinha sido de Vasco Pulido Valente.

Há precisamente 20 anos, em 28 de setembro de 2000, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou o Estado português por violação da liberdade de expressão do antigo diretor do Público Vicente Jorge Silva.

A queixa tinha sido apresentada ao Tribunal Europeu em 15 de julho de 1997, na sequência de um processo iniciado com um editorial de Vicente Jorge Silva, publicado em 10 de junho de 1993, a propósito do anúncio de que Silva Resende seria o candidato do CDS/PP à Câmara Municipal de Lisboa.

No texto, o jornalista afirma que "nem nas arcas mais arqueológicas e bafientas do salazarismo seria possível desencantar um candidato ideologicamente mais grotesco e boçal, uma mistura tão inacreditável de reaccionarismo alarve, sacristanismo fascista e anti-semitismo ordinário".

Na sequência do artigo, Silva Resende - advogado e antigo dirigente do extinto PDC (Partido da Democracia Cristã), mas cujo nome aparecia sobretudo ligado ao desporto como antigo presidente da Federação Portuguesa de Futebol e dirigente da UEFA - apresentou uma queixa-crime contra o então diretor do Público por difamação e abuso de liberdade de imprensa.

Redação / Atualizada às 12:10, com Lusa