Ivone Patrão, professora de Psicologia no ISPA - Instituto Universitário, está, em conjunto com um grupo de dez psicólogos, a avaliar a saúde mental dos portugueses durante o período de isolamento social. Até agora, a terceira semana de análise, já foram inquiridas mais 800 pessoas. Porém, os dados dizem respeito a apenas 317 portugueses, o número de indivíduos entrevistados até ao final da semana passada.

Das pessoas avaliadas, 38%, ou seja, mais de um terço, garante que, à medida que vão estando mais tempo em casa com a família, os conflitos interpessoais vão aumentando, um número previsível, mas preocupante, sobretudo se o dever de isolamento social se mantiver por muitas mais semanas.

Além disso, mais de metade dos entrevistados, 51%, sentem ansiedade, um valor "exagerado", segundo Ivone Patrão, na medida em que está em causa uma ansiedade que já carece de intervenção psicológica.

Mais de um terço das pessoas que se encontram em casa começa a apresentar sinais de exaustão, irritabilidade e de depressão. Aliás, os sintomas de depressão já afetam quase 30% dos inquiridos. Todos os valores subiram, em comparação com a primeira semana de análise. A mentora da investigação garante que a visível deterioração da saúde mental não é apenas provocada pelo isolamento, mas o dever a que estão obrigados todos os portugueses é, indubitavelmente, um fator que coloca em risco a saúde mental.

Há pessoas que não estavam bem, e isto tem tendência a aumentar, é importante a monitorização e a disponibilização de ajuda".

Consequência da ansiedade, 35% dos inquiridos garante que já não dorme bem durante a noite. E relacionado com este valor está aquilo que pode tirar o sono aos portugueses. Neste momento, a maior preocupação de quem cumpre isolamento social já não são é a saúde, ou seja, as consequências sanitárias que a Covid-19 pode causar, que passou para segundo plano, mas é o desemprego e as finanças, isto é, o medo de que, durante ou depois da pandemia, possam perder o emprego ou sofrer perdas de rendimento que coloquem em causa o bem-estar e a qualidade de vida da família.

Destaque ainda para as necessidades de quem está fechado em casa: em primeiro lugar, fica o convívio social, em segundo, a necessidade de sair à rua e, em terceira posição, o desejo de fazer exercício.

Conviver com amigos e familiares que estão distantes é, então, a maior necessidade que os inquiridos têm, mesmo que 85% deles passe, agora, muito mais horas online, quando comparando com o período anterior à pandemia. Estar online significa estar ligado à Internet, seja para trabalhar, falar com outras pessoas ou fazer compras. Ainda assim, esta janela para o mundo parece não substitui a necessidade de apoio psicológico que muitos portugueses sentem por estes dias.

O novo normal é estar em quarentena, mas isso não quer dizer que lidemos todos da mesma forma. Cada um vai ter de desenvolver as suas estratégias"disse Ivone Patrão, em entrevista à TVI.

A professora de psicologia e a equipa que lidera vão continuar a monitorizar as emoções dos portugueses, ao longo de todas as semanas de isolamento social, ao mesmo tempo que proporcionam consultas de psicologia gratuitas a todos os que a eles se dirigirem, por exemplo, através da página de Facebook PsiQuaren10.

Emanuel Monteiro