Ana Ferraz, de 29 anos, é moradora num bairro em Santo António dos Cavaleiros, no concelho de Loures. Como habitual, um dia, ao chegar do trabalho a contabilista estacionou o seu carro à porta de casa, uma vez que o prédio onde vive não tem garagem. No dia seguinte, saí de casa para ir trabalhar, mas, ao chegar ao veículo, deparou-se com um cenário inesperado.

Fiquei completamente em choque, eu não queria acreditar quando vi o carro. Eu só comecei a ver os riscos, então pensei que alguém me tinha vandalizado o carro, mas depois quando vi tubos roídos pensei: não, isto não é obra de uma pessoa

O carro, um Smart de quatro portas, estava totalmente riscado, apresentava marcas de dentes de animais e tinha dezenas de pedaços de tubos e cabos no chão. Inicialmente, Ana pensou que se poderia tratar de um assalto, um ato de vandalismo ou até um acontecimento paranormal. Mas rapidamente percebeu que o veículo tinha sido atacado por uma matilha de cães vadios, durante a madrugada do dia 30 de junho de 2020.

Eu estava na minha cama, ouvi barulho, vim à janela e descobri que os cães estavam de volta de um carro. Vesti-me e vim cá abaixo, às três da manhã. Quando eram uma cinco e tal da manhã, voltei a ouvir o mesmo barulho”, conta Olinda Neves, vizinha de Ana, assistiu a tudo.

O carro de Ana apresentava estragos no exterior, mas já no mecânico, o diagnóstico foi muito pior do que imaginava: o sensor de ABS estava inutilizado, assim como o tubo de travão. O guarda lamas também tinha de ser substituído, para além de o automóvel necessitar de uma pintura nova. O orçamento totalizava mais de dois mil e duzentos euros. Um valor elevado que, ainda assim, não preocupou a contabilista de 29 anos, porque tinha um seguro contra todos os riscos, pelo qual paga mais de 600 euros por ano. No entanto, as coisas não correram tão bem como se esperava uma vez que a seguradora se recusou a pagar.

Eu achei estranho, porque é um seguro contra todos, supostamente também deveria cobrir danos de animais, mas não. Cobre vandalismo, roubo, furacões, tudo menos animais”, lamenta a jovem.

De acordo com a Tranquilidade, a seguradora de Ana, a apólice do seu seguro, de facto, cobre todo este tipo de incidentes exceto danos causados por animais. Como precisava de usar o automóvel para ir trabalhar, a contabilista deu ordem à oficina para reparar a parte mecânica do veículo, que o impedia de circular, um valor superior a 500 euros.

A gente paga o seguro, pagamos os nossos impostos, fazemos tudo correto e quando acontece uma coisa destas ninguém é responsável.”, diz a mãe da contabilista.

Uma vez que o carro tinha sido estragado por causa de animais abandonados, Ana Ferraz preencheu um formulário de reclamação no site da Câmara Municipal de Loures onde expôs o incidente e pediu que fosse ressarcida pelos danos provocados no carro. Um problema que não é novo para a autarquia uma vez que em junho de 2020, um vizinho da mulher de 29 anos já tinha enviado uma denúncia para a junta de freguesia de Santo António dos Cavaleiros, a alertar para a presença de várias dezenas de gatos sem dono nas redondezas. Mas ao que parece, Junta e Câmara nada fizeram e, passado mais de um ano, Ana continua sem respostas.

Resta saber se a câmara vai aceitar ou declinar essa responsabilidade. Eu direi que, se não for eventualmente com a ajuda deste programa, a senhora terá muitas dificuldades em que uma câmara aceite pagar estes mesmos danos, porque vai dizer que não há prova. E se assim for a senhora só tem duas alternativas: ou suporta os danos ou propõe uma ação contra a câmara municipal”, afirma o advogado Paulo Veiga e Moura.

Certo é que, praticamente um ano e meio depois, os animais vadios continuam a ser presença assídua nesta zona de Santo António dos Cavaleiros, e Ana ainda continua a circular com o carro marcado pelas patas e garras dos animais, à espera que de poder ainda vir a ser compensada.

Emanuel Monteiro