O rosto fechado de Mwavita contrasta com os olhos brilhantes dos filhos, da nora e dos netos sentados ao seu lado, no Centro de Acolhimento para Refugiados, na Bobadela, enquanto ouve as, para si imperceptíveis, palavras do ministro da Administração Interna. Depois da morte do marido, em 2000, na voragem violenta de uma guerra que provocou milhares de mortos na República Democrática do Congo, a matriarca desta família, de agora 12 pessoas, disse ter vivido «como morta» os últimos nove anos. Passou-os num campo de refugiados na Tanzânia, à espera de uma oportunidade. À espera da «ressurreição».

Mãe e avó, com apenas 43 anos, Mwavita chegou há três dias, ao abrigo de um programa de reinstalação de refugiados. A família é o primeiro grupo a ser acolhido no país este ano sob esta resolução do conselho de ministros, assinada em 2007, que prevê a colaboração com o Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas, liderado por António Guterres.

Depois de uma cerimónia de acolhimento, que se realizou esta manhã no centro - em que ouviu as boas vindas do ministro Rui Pereira vertidas para suaíli pelo tradutor João Tomás -, a matriarca aceitou que se traduzissem também as respostas que deu às perguntas que lhe fizemos. E contou o que passou até chegar a Portugal, um país de que nunca tinha ouvido falar. «Vivi desamparada quando perdi o meu marido. Vivi deslocada, andei nas matas e fui acolhida num campo de refugiados», explicou.

Apesar da protecção que recebeu na Tanzânia, onde os netos nascerem, Mwaita revelou a angústia da incerteza. «Durante estes nove anos estive perdida, estive como morta. Mas, dentro de mim, havia uma esperança», contou, confidenciando depois uma pergunta que ecoava também dentro de si: «Será que ninguém vê o meu sofrimento para me ressuscitar?».

«Um ser humano»

Numa voz tímida, e quase sem levantar os olhos, Mwavita continuou, sob o olhar curioso das crianças à volta. «Aquela esperança, que sempre mantive durante estes nove anos, para que acontecesse o que está acontecer agora, aquela luz que tive no meu coração, hoje, é já, de facto, uma luz brilhante».

Para esta mulher, com uma estranha reminiscência da juventude, dissolvida nas olheiras carregadas - mas ainda assim perceptível -, a novidade ainda é recebida com defesas, mas também com alguma confiança. «Estou ainda um bocado surpresa, porque são os primeiros dias. Mas vejo o brilho dos portugueses de boas-vindas, de calor humano, de me reconhecerem como um ser humano».

«Falaram-me de Portugal. Eu não conhecia. Mas por causa da esperança que tinha, sabia que em Portugal seria a renovação de uma semente que estava quase morta e que iria brotar», acrescentou. «Agradeço o vosso carinho».

Questionada sobre se gostaria de regressar ao seu país, Mwavita sorriu pela primeira vez. Voltou-se para os filhos e pronunciou - no seu suaíli - uma série de sons elegantes, que João Tomás traduziu: «Tenho esperança de voltar para o Congo, mas estou a ver que as crianças estão entusiasmadas e apaixonaram-se por Portugal, por isso terei de perguntar-lhes depois se eles querem voltar ou não».

O ministro da Administração Interna explicou que este ano entraram em Portugal cerca de 90 refugiados directamente, mas que esta família foi a primeira a ser recebida sob o estatuto que prevê o acolhimento de pessoas que já se encontravam em outros países como refugiadas. «O que vamos procurar é integrá-las progressivamente, de forma a aprenderem a língua, procurarem emprego e integrarem-se na sociedade», explicou Rui Pereira, dizendo que têm um visto de cinco anos, com estatuto de asilo politico, que poderá ser renovado.

Teresa Tito Morais, presidente do Conselho Português para os Refugiados, explicou que «estão no centro 44 refugiados de 20 países». Além da Mauritânia, que lidera a lista, há também pessoas da «Colômbia, do Afeganistão, do Irão, do Iraque, da Somália, da Eritreia, dos camarões, do Nepal», entre outras nacionalidades.
Hugo Beleza