Não se tratou de nenhum tremor de terra. O momento em que começou a ruir o prédio situado no número 120 da avenida Elias Garcia, em Lisboa, foi mesmo captado em vídeo. Em poucos segundos, dezenas de gigantescas rachas tomaram conta das paredes do prédio e parte da estrutura veio mesmo a baixo.

As imagens dão conta dos momentos de pânico vividos pelos moradores que estavam dentro de casa quando o prédio começou a cair.

Há muito tempo que o edifício tinha morte anunciada, mas ninguém fez nada para impedir que um dia viesse desabasse.

Aline Avellar de Aguiar vivia, há 80 anos, no segundo andar do prédio da Avenida Elias Garcia, bem no coração de Lisboa. Veio morar para o edifício com 12 anos, para uma casa arrendada pela mãe e pelo padrasto. Aqui viveu, aqui cresceu, aqui casou, aqui viu a mãe a morrer e a filha nascer. Ao longo de 92 anos de uma vida cheia.

Nos últimos anos, partilhava a casa com uma empregada interna que também lá vivia, com a filha. Um dia, no início de dezembro de 2018, chegou a casa, mas as autoridades impediram-na de entrar. Tinha acontecido o pior. No fundo, o que já estava anunciado: parte do prédio tinha ruído.

Há mais de 15 anos que Aline anda num braço-de-ferro com senhorio por causa da falta de obras no prédio. Ao longo dos anos, o edifício foi acusando as marcas do tempo.

Aline aponta o dedo não só ao senhorio como à Câmara Municipal de Lisboa. Desde 2016, que troca assídua correspondência com responsáveis da autarquia, que sabiam do avançado estado de degradação do prédio.

Em 2017, há mais de dois anos, a câmara mandou fazer uma vistoria e concluiu que o “edifício era recuperável”, mas que estava em mau estado de conservação. Apesar disso, os técnicos da câmara consideraram que não havia grave risco para a saúde nem necessidade de desocupação ou despejo. Dois anos depois deste parecer, parte do prédio veio abaixo.

Na verdade, a autarquia intimou o senhorio, a fazer obras. Obras que nunca foram feitas. Passaram-se meses, novas intimações foram enviadas, mas nada aconteceu. Mais intimações, para novas moradas, desta vez já impondo ao senhorio obras coercivas, mas pouco ou nada mudou.

Depois de casa arrombada, trancas à porta. Um dia depois do prédio ruir, a Câmara Municipal de Lisboa pediu ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) para elaborar um parecer que avaliasse o verdadeiro estado de conservação do edifício e que esclarecesse as causas da derrocada.

A TVI teve acesso a esse parecer, que não poupa críticas aos proprietários dos prédios. O LNEC destaca a existência de fendas e esmagamento de paredes ocultas pela aplicação de sucessivas camadas de revestimentos.

As únicas pessoas que viviam no prédio quando caiu eram Aline e várias dezenas de jovens estudantes, a maioria estrangeiros, que viviam numa residência no rés-do-chão e noutra no 1.º andar.

Aline foi acolhida em casa da filha, os estudantes foram realojadas numa pousada da juventude. Por sorte, todos saíram ilesos.

Um mês depois da derrocada, Aline continua sem conseguir reaver os seus pertences. Pediu ajuda à Câmara de Lisboa para retirar o que ainda está dentro da casa, mas a câmara recusou-se a ajudar alegando que não tem essa obrigação, já que a casa não é camarária e empurrou para o senhorio.

Parece que muita a gente avisou para o perigo que se avizinhava, mas ninguém fez nada para impedir que o prédio caísse. Nos últimos anos, casos como este têm acontecido por toda a cidade.

Contactada pela TVI, a Câmara Municipal de Lisboa explica que, em 2018, notificou o proprietário do prédio para fazer obras que só foram realizadas, em 2019, poucas semanas antes da derrocada.

Quisemos também saber porque é que a autarquia não tomou posse administrativa do prédio, já que era conhecedora do avançado estado de degradação do edifício e sabia que ali viviam mais de 30 pessoas. A esta pergunta não obtivemos qualquer resposta.

Sara Bento