Daniela dorme com os três filhos numa cama improvisada na bagageira de uma carrinha no bairro Alfredo Bensaúde, em Lisboa. Numa altura em que o Governo pede todo o cuidado para combater a pandemia de Covid-19, a Câmara Municipal de Lisboa cumpriu uma ordem de despejo no dia 13 de Março e obrigou a mulher de 24 anos a fazer o isolamento social no meio da rua.

Fui despejada na sexta-feira quando pensava que já não ia sair por causa do alerta do vírus”, afirma, descrevendo o momento: “Eram muitas carrinhas, muitos carros, muitos agentes da PSP também. Entraram pela casa a dentro e não me deram tempo. Disseram-me: ‘Toca a andar, toca a despachar, quanto mais rápido melhor’.

 

A carrinha onde vive Daniela com os três filhos

Daniela ocupava uma casa camarária há seis anos. Uma decisão que foi tomada para não enfrentar os perigos de uma rua “completamente insegura em que o vento arrasta o lixo de um lado para o outro”.

Com uma filha com 6 meses ao colo enrolada num pano cor-de-rosa, Daniela afirma que durante a ordem de despejo nunca esteve presente uma assistente social, nem uma psicóloga. Uma obrigatoriedade imposta nas situações em que há menores afetados.

Ao lado da tenda improvisada onde Daniela tenta reorganizar a sua vida um passo de cada vez, está Tamara que também foi despejada na passada sexta-feira e tem uma filha com convulsões febris que com a mão delicada agarra o tecido das calças da mãe.

Chegaram lá, bateram à porta e disseram-me que tinham uma ação de despejo e que tinha de sair já. Fomos postos na rua, como se nós não fôssemos humanos. Querem as pessoas de quarentena e nós não temos onde ir temos de ficar na rua”, afirma. 

O despejo, no dia 13 de março, foi marcado por uma manifestação promovida pela associação HABITA, estas imagens mostram a força policial exercida contra os ativistas.

 

De imediato, Daniela e Tamara procuraram encontrar uma solução. Telefonaram para o albergue da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mas foi-lhes impedida a entrada devido ao excesso de lotação.

Disseram-me para ligar para o albergue, mas lá disseram-me que estava lotado. Qual é a solução que estão a dar? Nenhuma"

Contactada pela TVI, a Câmara Municipal de Lisboa diz que as desocupações estão suspensas desde o dia 12 de Março e que nenhuma família ficou sem alternativa habitacional.

As ações de desocupação só ocorreram depois de cumpridos todos os morosos contactos e notificações definidas - bem como os devidos acompanhamentos no âmbito do apoio social a estas famílias”, afirma o Pelouro da Habitação, contrastando com o momento vivido por Tamara e Daniela.

Lembramos ainda que as casas desocupadas estavam afetas a outras famílias, que estavam legitimamente à espera desta resposta habitacional em função de candidatura submetida e verificada de acordo com os critérios constantes no Regulamento Municipal de Habitação, igual para todos", afirma a Câmara Municipal de Lisboa.

 

As crianças do bairro Alfredo Bensaúde

 

Ivo Guerreiro, porta-voz da Associação de Moradores do Bairro Alfredo Bensaúde, denuncia a situação desumana vivida por 15 famílias que moram em tendas e barracas à volta dos quarteirões preenchidos por casas camarárias.

Muitas destas casas estão fechadas. É uma situação desumana, temos cerca de 15 barracas aqui. O Governo diz para as famílias ficarem em casa, mas aqui no bairro continuam a despejar. Continuam a mandar pessoas para a rua”, afirma Ivo Guerreiro.

E como é que se toma conta da saúde numa altura de alerta máximo no país? Daniela explica que, na rua, é preciso muitas vezes tomar decisões de vida ou de morte.

Não temos água potável para lavar, não temos desinfetante, não podemos fazer a higiene que eles mandam fazer. Nós estamos no meio da rua, é quase como nos dissessem  morram para aí. O bocadinho de água que temos é para cozinhar e para consumo. Vamos estar a gastar água quando precisamos dela para consumir?”, interroga enquanto ajeita a chuva da sua filha mais nova. 

Daniela, Carla, Tamara, Isa. Estes são alguns nomes de mães, algumas com filhos com problemas respiratórios, que se viram obrigadas a aguentar o frio, o vento e o medo de um vírus que, a cada dia que passa, não deixa de infetar mais pessoas em Portugal.